Verdade ou mentira?

Confira a análise das possibilidades que podem ser definidas como razoáveis e adequadas aos termos

Por Prof. Dr. Ronaldo Miguel da Silva | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Verdade ou mentira

Nosso objetivo para este momento não é definir, propriamente, o conceito de verdade. Pretendemos, de modo relacionado, analisar as características relevantes das atitudes de um informante, em vista de concluir pela sua confiabilidade ou não. Chamaremos de falante o emissor da informação e de ouvinte o receptor do conteúdo dessa mensagem.

Uma das evidências que o ouvinte tem para crer que o falante seja confiável é a ausência de sinais claros de mentira; isso fornece ao ouvinte alguma evidência sobre a confiabilidade do seu interlocutor.

No entanto, queremos demonstrar que, em muitos casos, não é tão simples o ouvinte detectar sinais de mentira no comportamento do falante, de modo a não obter fortes evidências sobre sua confiabilidade; pelo menos não o suficiente para tornar o ouvinte justificado em crer que o seu interlocutor seja ou não confiável.

Aqui, certamente, seria necessária uma abordagem mais aprofundada sobre o conceito de mentira/erro/engano, mas não teremos espaço para tanto. Vamos assumir, a princípio, de acordo com The Oxford Dictionary of Philosophy, que mentira é o ato de “deliberadamente declarar uma falsidade com intenção de enganar ou induzir ao erro. Dizer algo falso, sabendo que o ouvinte irá interpretar como algo que é, de fato, verdadeiro” (BLACKBURN, 2005, p. 218.).

Corroborado pela lexicografia brasileira, Antônio Houaiss argumenta nesse mesmo sentido que mentir é dizer ser verdadeiro aquilo que se sabe falso, como também dar informação falsa a alguém afim de induzir ao erro (cf. HOUAISS, 2001, p. 1895.).

Como se nota, nessas concepções de mentira se inclui a questão da intencionalidade do falante mentiroso. No entanto, é preciso informar que tal concepção não é consensual entre as diferentes áreas do saber científico.

Para a psiquiatria, por exemplo, a análise do comportamento mentiroso deve incluir não somente a atitude do falante, mas, inclusive, o seu contexto cultural, as circunstâncias do ato e os propósitos que acompanham tal comportamento (cf. DIKE, 2008.).

História

Na filosofia antiga, Aristóteles (384-322 a.C.) se ocupa do tema da mentira, em principal, na obra Ética a Nicômaco. Na filosofia medieval, Tomás de Aquino (1225-1274) também estuda essa questão na Suma Teológica.

No período filosófico moderno se destacam, nessa abordagem, Immanuel Kant – em suas obras Fundamentação da metafísica dos costumes, Princípios metafísicos da doutrina da virtude e Sobre um pretenso direito de mentir por amor aos homens – e Benjamim Constant – em seu livro Des réactions politiques.

Dentre os filósofos contemporâneos está Sissela Bok, com sua obra Lying. No entanto, foi Agostinho de Hipona (354-430), na história da filosofia medieval ocidental, quem mais se destacou por se ocupar do tema, de modo sistematizado e analítico.

Herdando do pensamento de Platão (428-348 a.C.), exposto nas obras Teeteto, República e Hípias Menor, Agostinho estuda o tema da mentira em várias de suas publicações: Confissões, Solilóquios, Retratações, De Magistro, De Mendacio e Contra Mendacium.

Para Agostinho, o que define a natureza da mentira é a intencionalidade do falante, independentemente da verdade ou falsidade do conteúdo da fala: “Não há mentira, apesar do que se diz, sem intenção, desejo ou vontade de enganar . […] Não se mente ao enunciar uma asserção falsa que cremos verdadeira, […] antes mente-se ao enunciar uma asserção verdadeira que cremos falsa. Pois é pela intenção que se deve julgar a modalidade dos atos ” (AGUSTIN, 1954, p. 244 e 367.).

Portanto, segundo Agostinho, mentira é uma significação falsa unida à vontade de enganar, pois ninguém duvidará que mente aquele que, deliberadamente, diz algo falso com a intenção de enganar.

Dessa forma, é possível concluir que, para Agostinho, o falante mente se e somente se: (1) o falante afirma uma falsidade; (2) o falante crê num conteúdo tal e, deliberadamente, afirma a negação desse conteúdo; e (3) o falante tem a intenção de enganar o ouvinte em vista de que creia que a afirmação é verdadeira.

A essa concepção tradicional de mentira recorrem, direta ou indiretamente, muitos estudiosos ao se ocuparem do tema. A respeito da condição (1) da concepção agostiniana não há dissenso. A respeito da condição (2), a mesma parece amplamente aceita na literatura contemporânea, ou seja: afim de mentir, alguém tem que dizer algo que crê ser falso.

Há quem defenda que a mentira está, em grande parte, relacionada à norma conversacional de veracidade: “eu acho que se mente ao afirmar algo que se crê ser falso. Você afirma algo quando: (a) diz alguma coisa e (b) crê que está em uma situação onde não deveria dizer aquilo que crê como falso” (FALLIS, 2009, p. 06.).

Nessa mesma linha de pensamento, há aqueles para quem a mentira está relacionada diretamente à quebra de confiança que, de algum modo, aduz a princípios de cooperatividade; no entanto, o mais importante são as implicações morais relevantes neste tipo de ato: ao mentir, o falante está voltado a uma interlocução; mas, sobretudo, convida o ouvinte a confiar no que ele diz para, então, trair essa confiança com declarações falsas credíveis (cf. CARSON, 2006, p. 302.). No entanto, mentir não é, simplesmente, o ato de se dizer aquilo que se crê ser falso.

Nesse sentido, estudiosos têm feito várias sugestões a respeito de qual condição adicional poder-se-ia inserir na concepção tradicional de mentira. A respeito da condição (3) da concepção agostiniana, por exemplo, muitos pesquisadores têm corroborado a ideia de que o mentiroso tenha a intenção de enganar. No entanto, essa não é uma questão consensual: existem estudiosos que questionam a tese de que intencionalidade seja uma condição necessária para a mentira (cf. CARSON, 2006; FALLIS, 2009; SORENSEN, 2010.).

Além disso, existem outras nuances nessa discussão que não adentraremos aqui: por exemplo, existem pesquisadores que não apenas incluem como condição necessária o caso da intencionalidade do falante, mas também a necessidade de que o falante creia que irá enganar (cf. CHISHOLM & FEEHAN, 1977.) ou a necessidade de que o falante não tenha como garantir a verdade de sua afirmação (cf. CARSON, 2006.).

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