Tolerância: um valor humano e uma necessidade social

Por Cassio Donizete Marques* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras


Norberto Bobbio (2004) nos ajuda a pensar esta questão sobre os limites da tolerância ao apresentar o lado positivo e negativo tanto da tolerância como da intolerância. Para ele a tolerância, no seu sentido negativo, é sinônimo de indulgência culposa, de condescendência com o mal, com o erro, por falta de princípios, por amor da vida tranquila ou por cegueira diante dos valores. Por outro lado, a intolerância em seu sentido positivo é sinônimo de severidade, rigor, firmeza, qualidades todas que se incluem no âmbito das virtudes. Para Bobbio toda tolerância é sempre em face de alguma coisa, ou seja, tolera-se algo em detrimento de outra coisa. Estas considerações nos levam a ponderar nossas ações, o quanto efetivamente estamos contribuindo para a mudança qualitativa a nossa volta ou o quanto estamos acomodados em nome da tolerância, enquanto a intolerância toma conta da sociedade. Combate-se a intolerância com a tolerância, ou existe, um ponto em que a intolerância deve ser o remédio da intolerância?

 

A nossa realidade cada vez mais veloz e fluída nos diz que tempo é dinheiro e com isso ser tolerante é perder tempo. O tolerante é visto como aquele que pacientemente aguarda, aguarda e aguarda, ou seja, não toma decisão, não tem iniciativa, não é proativo. Por este prisma é possível dizer que atualmente se tolera mais por falta de convicções próprias do que por respeito as convicções alheias, ou seja, a tolerância não é fruto de uma postura de alteridade, mas da falta de convicções pessoais. Esta é uma das muitas situações em que a questão da tolerância se faz presente.

 

Tolerar não é ser omisso ou passivo diante das situações diárias, mas é saber ‘medir’ as ações e com isso verificar suas consequências antes de tomá-las. É não tomar uma decisão movido unicamente pelo sentimento ou paixão momentânea, é saber olhar o outro como diferente e reconhecer nele os mesmos direitos que você tem.

 

 

De certa forma podemos dizer que a tolerância é consequência da ignorância, pois se pudéssemos ter conhecimento da verdade não seria mais necessária a tolerância, pois diante da verdade tudo mais torna-se desnecessário ou mesmo deixa de existir. A verdade não passa pelo grifo da tolerância ou não, ela simplesmente é e não precisa ser ou não tolerada. É como a matemática, ela não precisa de nenhuma outra ciência para existir, ela se basta na sua formalidade, não tem sentido dizer que você não tolera que um mais um é dois, ou melhor, em nada vai mudar a realidade, um mais um continuará sendo dois quer você tolere ou não. É lógico que você poderá dizer que a realidade não se resume a números e a cálculos matemáticos e que por isso não é possível falar em verdade, mas em verdades. Porém, mesmo diante desta verdade (a realidade não se resume a números), eu considero que é possível ao ser humano caminhar na direção da verdade e quanto mais se aproxima dela menos intolerante se torna. Parece contraditório a afirmação uma vez que muitas tragédias históricas ocorreram em nome de uma verdade o que levou a atos de total intolerância diante do outro. Mas esta posição é apenas uma posição pessoal que merece maior estudo e reflexão o que não cabe neste artigo.

 

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Adaptado do texto “Tolerância: um valor humano e uma necessidade social”

*Cassio Donizete Marques é professor de Filosofia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP).