Sartre: filosofia sem confiamento

Filosofo levou a disciplina às ruas, manifestações, palcos e ao mundo

Por Vimala Ananda Jay* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Sartre

Um dos principais nomes do Existencialismo francês, Jean-Paul Sartre nasceu em Paris, em 21 de junho de 1905. Viveu 75 anos de uma vida produtiva, agitada, polêmica.

Pode-se dizer que foi um homem em constante namoro e atrito com seu tempo histórico, à medida em que da história se aproximava para fazê-la, agir sobre ela, e à medida em que dela recebia toda sua carga de exigência de compromisso.

Por algum tempo, Sartre foi considerado como um filósofo “datado”, fora da moda, digamos assim. Talvez tenha sido colocado de lado durante alguns anos porque afinal de contas nunca se importou em incomodar.

Comprou custosas brigas. A causa primordial de todas elas: a liberdade de comportamento, de expressão, a forma como colocava-se em plena situação em seu tempo histórico.

Sartre preocupava-se em tirar a filosofia do confinamento da academia. Levou-a às ruas, às manifestações, ao palco, aos cafés de Paris, onde podia-se encontrá-lo, muitas vezes com sua companheira Simone de Beauvoir. O casal tornou-se modelo para o que se denominava contracultura.

A filosofia sartriana é assim vislumbrada como resistência à filosofia cerceada pela academia e a certo modo de compreendê-la como um pensamento extrínseco aos problemas do homem (inclusive aos cotidianos, às escolhas (choix) éticas que devem ser tomadas a cada fôlego renovado).

Aquela “filosofia de sobrevôo”, burguesa e acadêmica, como definida por Sartre, teria como método a abstração e a análise, em detrimento de uma intuição primordial, e não se afastaria do poder de determinada classe social.

Opor resistência a este meio e a determinado modus operandi da cultura francesa representava não apenas desmontar o aparato do que Sartre denominou de
“filosofias alimentares”.

Era também atingi-las na ação política, no labor cotidiano, por meio da paciente e incansável crítica e autocrítica das condutas de sua classe e das ideias conservadoras introjetadas pela cultura e pela educação que ainda montavam guarda, mesmo que involuntariamente.

É neste contexto que Sartre opõe o primado da existência ao primado do conhecimento. “A existência precede a essência” é a frase-chave do Existencialismo. Quer dizer que a essência do homem vai se constituindo ao longo do tempo a partir das escolhas que este faz. Não há uma essência prévia que o determine. Por isso, o homem está condenado a ser livre, afirmação aparentemente contraditória.

Mas o que ela quer dizer? Que não existe uma natureza humana (embora haja condições para sua existência – como nascer em tal país, em tal contexto histórico
etc) – é a livre escolha que fará o ser. Essa aventura não está confinada ao conhecimento, mas é algo que se refere às ações, ao campo da ética.

Adaptado do texto “Sartre: por uma filosofia do homem concreto” da Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 130. Garanta a sua pelo site ou nas bancas!

*Vimala Ananda Jay é mestre e doutoranda em Filosofia Contemporânea pela USP, professora, escritora, saxofonista do Grupo Musical Ungambikkula, sócia do Espaço Cultural Ungambikkula e idealizadora do Ateliê de Escritores. Euclides Moreira Guimarães Junior é graduada em Filosofia pelo ICSH/CESB.

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