Rousseau e a educação

Com sua obra Emílio, Rousseau defende que o homem deve ter mínimas interferências em sua formação. Colocando a criança como centro de sua própria formação, Rousseau criou uma revolução na pedagogia, assim como Copérnico fez na astronomia

Por Rodolfo de Souza* | Adaptação web Tayla Carolina

Nunca se empregou tanta sutileza no sentido de nos bestializar; dá vontade de andar de quatro, quando acabamos de ler o seu livro.” Esse é o trecho de uma carta de Voltaire enviada a Rousseau no ano de 1755, ao ler o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.

A negativa descrição da corrupção humana em sociedade contraposta à positiva visão do homem em sua condição natural, a crítica às ciências e às artes, como às letras, tornam Rousseau, aos olhos de Voltaire, uma figura contrária ao movimento filosófico de sua época, que as exalta como luz frente à ignorância, ao fanatismo e aos difusos preconceitos.

Continua Voltaire: “Como perdi tal hábito há mais de sessenta anos, desgraçadamente sinto ser impossível recuperá-lo, e deixo essa postura natural aos que são mais dignos dela do que o senhor e eu”. Rousseau envia uma carta em resposta às críticas irônicas de Voltaire, em defesa de suas ideias e discordando da má interpretação do colega.

Porém, o ponto que chama atenção nessa querela para este trabalho é se algumas suposições dessa leitura de Voltaire do Discurso sobre a desigualdade podem ser estendidas ao Emílio ou da educação, ou seja, o que pensaria Voltaire da seguinte passagem?

Dir-me-ão que os animais, vivendo de uma maneira mais conforme à natureza, devem estar sujeitos a menos males do que nós. Pois bem, essa maneira de viver é exatamente a que pretendo dar a meu aluno, que dela deve tirar o mesmo proveito.

Emílio é uma obra tão impactante quanto os dois primeiros Discursos. E, uma suposição óbvia e direta desse trecho parece ampliar as convicções estipuladas por Voltaire. Se as primeiras obras de Rousseau foram fortes “pinturas” de “horrores” sobre a humanidade e de um retorno a natureza, Emílio certamente terá provocado uma impressão ainda mais intensa em seus leitores.

Pois, ao propor uma educação negativa de um aluno distante da sociedade e dos laços humanos, entregue puramente a si e a natureza, desprovido de qualquer luxo ou objetos considerados socialmente necessários, não converge para a interpretação de Voltaire, a de que Rousseau propõe um retorno às florestas e que se passe a viver como os “selvagens”? Porém, essas interpretações seriam coerentes ao pensamento de Rousseau?

 

*Rodolfo de Souza é bacharel em Filosofia pela PUC-Campinas e mestrando em Filosofia da Educação pela Unicamp. Coordenador e professor da Rede Pública de Ensino Integral de São Paulo, na Escola “Prof. Antônio Berreta” – Itu. Também atua como coordenador do Cursinho Popular em Salto – EPA. rodolfoidt@yahoo.com.br

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 138

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