Nietzsche e o ressentimento

Podemos experimentar dois tipos de vidas: a da alegria e a do ressentimento. Nietzsche explica por que o homem fica preso à moral do rebanho e da tristeza

Por Vanessa Diniz* | Adaptação web Tayla Carolina

O presente trabalho tem como objetivo uma breve discussão sobre a concepção de moral dentro da obra de Friedrich Nietzsche, especificamente da moral do rebanho, conhecida herdeira da moral de escravo: para o autor, a moral do rebanho é mais uma moral entre outras possíveis, apenas uma entre outras.

Não existe uma construção de moral que nos aponte que no futuro estaremos mais próximos da moral “ideal”. A moral de rebanho não é assegurada, muito menos definitiva. Contudo, Nietzsche mostra a força que esta adquiriu na sociedade.

No contexto social, ela nos leva a entender por que, para Nietzsche, o problema moral é de suma importância: os valores morais são os orientadores do conhecimento, das artes e das aspirações políticas e sociais, por isso são o cerne da formação da civilização.

A moral do rebanho está diretamente relacionada ao processo de socialização do homem, assim como o ressentimento; o autor nos revela que o ressentimento é a gênese da valoração moral do rebanho.

A genealogia da moral

Nietzsche mostrou que a genealogia, isto é, a construção da moral, de maneira geral, também foi decorrente de jogos de dominação, que personificam os conflitos de forças em constante luta, presentes na história. A moral em seu contexto genealógico pode ser entendida, portanto, como uma doutrina que rege as relações de dominação sob as quais se desenvolve o que chamamos de vida em sociedade.

Os envolvidos na disputa caracterizaram certo tipo de moral. De um lado estavam os senhores de terra, representando a moral do senhor. No polo oposto, “aqueles que são melhores que os poderosos, cujo escarro têm de lamber”, representariam a moral do rebanho (Nietzsche, 2009, p. 35).

A partir dessa disputa de poder, se deu o instinto que forjou a moral do rebanho: o ressentimento. Todavia, não é possível explorar o ressentimento percebido como uma forma moral sem examinar – e entender – o extrato da sociedade no qual ele apareceu: “o rebanho”.

Afinal, a partir do momento em que o homem apareceu, garante Nietzsche, “sempre existiram rebanhos humanos – associações raciais, comunidades, tribos, nações, Estados, Igrejas (…)” (Moura, 2005, p. 215). O rebanho respira obediência.

Para Nietzsche, a obediência está impregnada nos homens, além de ser praticada e ensinada desde a mais tenra infância para fins de dominação e poder. “Essa necessidade de obedecer procura preencher sua forma por algum conteúdo, aceitando tudo que as instâncias de comando lhe sussurram aos ouvidos – os pais, professores, os prejuízos de classe, opinião pública…” (Moura, 2005, p. 214).

Nesse primeiro momento, Nietzsche reflete que a obediência é a própria constituição da moral e, nesse caso, está intrinsicamente ligada aos costumes. A obediência do rebanho é cega, não permite que apareçam dúvidas nem tolera questionamentos dentro da “sagrada” tradição.

Todas as ações e medidas, dentro do grupo, são executadas em nome da tradição que emerge como autoridade máxima. Considera-se “imoral”, pois, o indivíduo que não quer se submeter à tradição e aos costumes (Moura, 2005).

 

*Vanessa Diniz é psicanalista e estudante de Filosofia da USP.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 138

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