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Rabino Samy Pinto

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Entrevista com Rabino Samy Pinto

Rabino Samy Pinto reflete sobre diversas questões pela ótica da cultura e da tradição judaica

Por Edgar Melo | Foto Divulgação | Adaptação web Isis Fonseca

Rabino Samy Pinto

Especialista em Educação, o Rabino Samy Pinto gosta de falar sobre o tema e a respeito do próprio judaísmo de maneira perspicaz. Para ele, os professores modernos devem ser verdadeiros mestres, atraindo seus alunos como discípulos fora da sala de aula, evidenciando, assim, sua autoridade temática e moral.

Formado em Ciências Econômicas, o Rabino especializou-se em Educação em Israel, na Universidade Bar-llan, mas foi no Brasil que ele concluiu seu mestrado e seu doutorado em Letras e em Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP). Samy Pinto ainda é diplomado Rabino pelo Rabinato-Chefe de Israel, em Jerusalém, e, hoje, é o responsável pela sinagoga Ohel Yaacov, situada no bairro dos Jardins, na capital paulista, também conhecida como “Sinagoga da Abolição”.

Autor de diversos livros, como Maimônides, o Mestre – uma Pedagogia para o século 21 (Editora Perspectiva) e Desvendando o Homem – a filosofia educacional do Maharal de Praga (Editora Sefer), nosso entrevistado percorre, na conversa a seguir, o sinuoso caminho entre Religião, Filosofia e Educação.

De origem judaica, o renomado filósofo Noam Chomsky nunca poupou críticas a Israel, principalmente aquelas relacionadas ao processo de paz com os palestinos. Como o senhor avalia tal posição?

Noam Chomsky é responsável por grandes contribuições para a humanidade, com o seu notório conhecimento em Literatura e Linguística. Entretanto, e esta é uma questão à qual estamos assistindo com frequência no século XXI, os intelectuais posicionam-se em outras áreas do conhecimento que não as suas e, neste ponto, eu tenho uma crítica sobre isso.

As posições políticas de Noam, de esquerda, produziram críticas muito contundentes à política externa e à política econômica dos Estados Unidos. Ele defende lutas populares como forma de ampliar a democracia, sem analisar o que é melhor para a própria população, como se a demanda popular fosse uma verdade absoluta.

E, no caso do Estado de Israel, ele tem o direito, como ser humano, de apresentar suas posições, mas a verdadeira posição de Noam Chomsky, no meu entendimento, na área política com relação a Israel, não é expressiva. Porque eu entendo que, quando ele fala de Israel como um lar étnico para os judeus, e não um como um Estado judeu, ele comete uma distorção, faz um trocadilho de linguagem, e comete um desconhecimento de História e de pensamento judaico, o que é uma distorção muito séria.

No entanto, como ele é da área da Linguagem, e não da área da História e do pensamento, isso precisa ficar cada vez mais claro. Faço uma analogia: no hospital, se tivermos em um setor de oncologia e precisarmos de uma opinião, Noam Chomsky não pode opinar naquele momento, não nesta situação que estou, metaforicamente, trazendo aqui.

Então as opiniões dele sobre o que é terrorismo de Estado, terrorismo, relativização do Hezbollah e do Ramas, em todas essas posições, de fato, é enfatizado um estado terrorista, como os Estados Unidos e até mesmo Israel. Ele faz uso de um pensamento de esquerda que distorce o conhecimento e, com seu prestígio intelectual, causa um dano muito grande à compreensão dos fatos. Esta é minha posição inicial com relação a isso.

Com a experiência de ter morado e estudado em Israel, qual é a sua avaliação sobre o conflito entre israelenses e palestinos?

Com relação aos conflitos, eu digo, com toda a tranquilidade, que o exílio do povo de Israel e seu retorno concedido pela ONU, em 1947, são um fato. Os judeus terem retornado ao seu território natural já constitui um fato histórico, politicamente aceito e correto. Ele pertence a uma área interdisciplinar da História, da Política, e da Teologia da Religião. Acima de tudo, os conflitos aos quais estamos assistindo, que parecem intermináveis, são da ordem da profecia.

O problema é muito mais profético do que se imagina. Porque, imaginemos, quanto tempo foi gasto para as várias reuniões e comissões de parlamentares, políticos, historiadores? Já vimos todos os tipos de sugestões para acalmar a região. Já vimos a solução de dois Estados, um ao lado do outro. Já vimos um Estado binacional, já vimos um Estado acolhendo os demais povos e religiões como outros Estados pelo mundo fazem, de maneira que todas essas sugestões, oriundas do campo das ciências políticas e históricas, esbarram num resultado que não parece chegar, um resultado inalcançável. Para muitos, isso causa um pessimismo muito grande.

O senhor acredita que a religião deva desempenhar um papel preponderante no Estado de Israel, na criação de leis e posicionamentos?

A minha posição é que, de acordo com a literatura clássica do judaísmo, percorrendo o Talmud e os grandes pensadores e filósofos da Idade Média e continuando pela Idade Moderna, a missão do povo judeu na história universal é a de fato ser um povo que recebeu uma missão sacerdotal em nível mundial, dentro de um território natural.

Nós acreditamos que, ao estudar toda a literatura judaica, existe um propósito na criação do mundo e um propósito na vinda do povo de Israel na História da humanidade. O judaísmo nasce numa revelação de Deus para um povo inteiro. Nessa revelação, Deus coloca não só os conteúdos dessa nova forma de ver o mundo e de viver que é o judaísmo. Ele explica também a missão nacional desse povo. Portanto, o judaísmo deve andar com o Estado. Ele dá sentido a toda a história de Israel e alimentará o presente e o futuro em seu destino histórico.

Então, os posicionamentos do Estado de Israel, quando fundamentados na sabedoria judaica, tendem a ter muito mais sucesso e aceitação, porque essa é a razão. A história do sionismo começou, na verdade, com rabinos, esses rabinos do século XIX falaram desse movimento de retorno dos judeus já no século XIX para a antiga Palestina e a retomada da ideia de Deuteronômio, de cumprir a lei e voltar a ser uma nação com Estado para servir de modelo para as demais nações.

Acontece que, da mesma forma que esses rabinos vieram ao mundo no século XIX, para trazer de volta esse pensamento genuíno, explicitado, visões da Bíblia, dos profetas do Talmud, nós tivemos a surpresa de um movimento que também se formou, que é o do Iluminismo Judaico. Lá, os princípios eram o progresso e a modernidade, a assimilação do povo judeu, em detrimento do progresso e da modernidade, mantendo a cultura judaica genuína.

A esquerda brasileira apresenta um tom crítico sobre o Estado de Israel. De que forma o senhor avalia isso?

Com relação à esquerda brasileira e à sua posição crítica ao Estado de Israel, eu avalio isso como um movimento previsto. Não me causa nenhuma surpresa, embora seja preciso amadurecer a sociedade para que ela esteja atenta, porque o que nós temos hoje é uma esquerda, não só no Brasil, como possivelmente pelo mundo, que combateu, como no Brasil, a Ditadura, combateu regimes autoritários na Europa e pelo mundo afora, mas, na verdade, ao destituir o regime autoritário ditatorial aqui no Brasil, por exemplo, vem instaurando uma ditadura de esquerda.

Não dá para ser a favor de Israel, porque esta é uma das melhores e maiores democracias do mundo, é um Estado democrático por excelência, não dá para apoiar porque não interessa à mente esquerdista, pelo menos para a mente esquerdista à que nós estamos assistindo hoje, o pluralismo de ideias; o contraditório é algo impensável nas características do pensamento de esquerda.

Além disso, nós estamos também assistindo à outra questão muito complicada, que é o autoritarismo nas academias, principalmente na área das Ciências Humanas, então, ou você se identifica com o pensamento chamado de liberal, de pensamento progressista, ou você não presta, você é retrógrado, quer a ditadura de volta, é chamado de elite, pertencente à elite etc.

Então, existe uma agressividade muito grande nas poltronas acadêmicas, tanto por parte dos professores quanto dos alunos que recebem essa doutrina nas academias de Ciências Humanas e não é só no Brasil. Portanto, como é possível que um país como o Estado de Israel seja apoiado por uma esquerda desse tipo?

Adaptado de Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131!

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