Por que filosofar?

Em tempo digital, em um mundo de iphones e de ressonância magnética, como atender questões sobre expedientes para profissionais perplexos?

Por Rose Pedrosa* | Adaptação web Tayla Carolina

É fácil sentir-se amedrontado em pleno século XXI, 2018. E entre as coisas mais assustadoras para os peripatéticos, estão: Existe um lugar nas estruturas intelectuais para o exercício do funcionalismo, do profissionalismo? Para ser terceirizado?

Para ser contratado, admitido, rotulado, aposentado, como profissão, capaz de dar conta de uma produção na língua do mercado? Ou tudo isso é uma utopia delirante em que se pode construir o seguinte diálogo:  – Onde você trabalha? – Ah, estou há cinco meses trabalhando na Casa Grécia! –E o que você faz? – Eu trabalho no departamento de manutenção e restauração de ideias complexas. – E qual é a sua profissão? – Filósofo! – E qual é a serventia de um trabalho como esse?

Certa vez, de acordo com Cícero (106-43 a.C.), quando o príncipe Leonte perguntou a Pitágoras em que arte era versado, respondeu-lhe que em nenhuma. Era um filósofo, isto é, um estudioso e amigo da sabedoria. Aristóteles, em sua Metafísica, diz que não se trata de uma ciência produtiva, mas a força que atrai as pessoas a filosofar, a dar-se pelo seu maravilhamento.

Portanto, diz o filósofo estagerita, “se foi para escapar à ignorância que se estudou Filosofia, é evidente que se buscou a ciência por amor ao conhecimento, e não visando qualquer utilidade prática” (Metafísica, livro I, 982b20).

Em A república de Platão (487c-d), diz: “De todos os que se iniciam na Filosofia – não os que dela se ocupam quando jovens, no intuito de se instruir, e a abandonam em seguida, mas os que nela se demoram por mais tempo –, a maioria torna-se muito excêntrica, para não dizer completamente perversa; ao mesmo tempo, os que se mostram perfeitamente decorosos […] tornam-se inúteis”. Então, como falar disso?

Como vivemos numa época que se extrema para o pragmático, o utilitarismo, a produtividade, a globalização, é de se esperar que a pergunta acerca do expediente, do que a Filosofia faz, ou então para que serve um filósofo de profissão, se reatualize nos novos contextos.

Pois a Filosofia não funciona com essa velocidade exigida pelo mundo atual. No entanto, os recursos tecnológicos, digitais disponibilizados hoje promovem no discurso filosófico questões com novos endereçamentos existenciais, pós-estruturais e hermenêuticos.

Para começar, tentemos esclarecer alguns aspectos da questão proposta acima, tentemos nos desfazer de alguns pré-juízos filosóficos, acadêmicos.

O paradoxo da Filosofia: pensamento e vida

Nietzsche, em suas meditações, frequentemente censura a Filosofia por sua pretensão, segundo ele, a se opor à vida, a medir e a julgar a vida, a considerar-se como fim.

Ora, para Aristóteles fica claro que buscamos esse conhecimento (a Filosofia) não por uma vantagem externa, pois a época em que testemunha o seu apogeu, “praticamente todas as necessidades da vida já eram atendidas” (Metafísica, 982b20).

“Ademais, é com acerto que a Filosofia é chamada de conhecimento da verdade. O objetivo da ciência especulativa é a verdade, ao passo que o da ciência prática é a ação…” (Metafísica, livro II, 993b20).

O escritor Antoine de Saint-Exupéry nos alivia da austeridade desse conceito dizendo: “A verdade não é o que se demonstra. Se nesta terra, e não em outra, as laranjeiras lançam sólidas raízes e se carregam de frutas, esta terra é a verdade das laranjeiras.

Se esta religião, esta cultura, esta escala de valores, esta forma de atividade e não outras favorecem no homem sua plenitude, libertam nele o grande senhor que se ignorava, esta escala de valores, esta cultura, esta forma de atividade é a verdade do homem. E a lógica? Ela que se arranje para tomar conhecimento da vida” (Terra dos homens, Olympio, 1978, p. 135).

Saint-Exupéry, com sua reflexão sobre a verdade, certamente não nega o valor da lógica. Ele chama atenção para o fato de que a lógica deve tomar conhecimento da vida. Deve ter a mais profunda simpatia com as coisas do mundo, caso contrário a verdade tornar-se-á algo sem efeito para a realização humana.

É possível sim que nossos filósofos tenham se empenhado numa luta fervorosa por verdades gerais, encaminhando a humanidade em pareceres razoáveis de ética, política, sociedade, convivência, por via da razão.

No entanto, não podemos negligenciar em reparar que os filósofos, a exemplo do pré-socrático Xenófanes, Sócrates, Montaigne, Erasmo, Voltaire, Hume, Lessing e Kant, pertenciam à tradição da escola cética, a qual enfatizava nossa ignorância humana. Com isso queremos dizer, com palavras de Voltaire, que “errar é humano, estamos o tempo todo cometendo erros.

Perdoemos, então, as loucuras uns dos outros” (Tratado sobre a tolerância). Também podemos, a exemplo do dramaturgo Pirandello em sua peça Assim É se lhe Parece, compreender o que dizia Kant, que nós não podemos afirmar a realidade exterior como uma verdade objetiva, pois o que tenho é a aparência.

 

*Rose Pedrosa é filósofa clínica (Instituto Packter). Graduada em Filosofia pela Universidade
Estadual do Ceará. Professora titular do curso de Formação em Filosofia Clínica de Fortaleza-CE.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 138

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