É necessário revoltar-se?

Por Douglas Rodrigues Barros* | Adaptação web Tayla Carolina

Sabemos o quanto a Filosofia foi perseguida durante sua história. Sócrates, que nas palavras de György Lukács trazia um desconforto geral ao anunciar que a solidez da tradição grega se dissolvia, foi o pai e a primeira vítima fatal desse tipo de pensamento intransigente e a um só tempo insubordinado.

Mas o que tinha feito Sócrates? Em termos grosseiros, simplesmente lançado um convite à reflexão sobre aquilo que era considerado como certo e, aparentemente, imutável. Fez sua fama tateando desagradavelmente as crenças alheias, demonstrando que se às vezes os resultados são funestos, é porque a Filosofia não deixa o saber ser atraiçoado pelas ilusões cotidianas.

Abandonar as certezas, sabemos também, é um exercício difícil, doloroso e, para o poder constituído, sempre perigoso. Quem não ouviu falar da magnífica lenda na qual, interpelado por seus débeis acusadores, Galileu Galilei, para não morrer nas mãos da Inquisição, concordou que a Terra estava parada, mas, após a sentença, virou-se de lado e suspirou: eppur si muove (no entanto, ela se move)?

 

→ Gilead à brasileira?

 

Por infelicidade, apesar de todos os expedientes, cada qual mais extravagante, para se salvar, Giordano Bruno, com sua intransigente postura filosófica, não teve a mesma sorte de Galileu e foi executado pelo Santo Ofício. Assim, os exemplos da insubordinação filosófica permeiam os diversos momentos da existência humana e chegam até os dias atuais.

Há pouco, grupos reuniram- se para tentar impedir um debate estritamente filosófico protagonizado por Judith Butler aqui no Brasil. Longe das posições fanáticas do Santo Ofício e em pleno século XXI, a Filosofia ainda é capaz de provocar exaltação que não raras vezes termina em delírio.

O convite para abandonar as certezas continua, desse modo, fascinante e perigoso. Para o poder constituído ou para aqueles que não foram favorecidos por um razoável coeficiente de formação crítica, o problema da Filosofia é que, ao interpretar o mundo, ela acaba por demonstrar seus limites e, por consequência, ao demonstrar tais limites, ela convida a ultrapassá-los.

 

→ As ideias de Platão

 

O que era aparentemente sereno e tranquilo, aquilo que parecia sólido sobre a face lisa do mar, dissolve-se por uma simples e por vezes ingênua questão. Entre nós, certamente, há aquele que testemunhou uma criança fazer uma das perguntas filosóficas por excelência: De onde vem Deus?

Urge ainda a insensatez quando, cativos do látego da intolerância, bradam contra o saber. O fundo tranquilo e obscuro das almas inflama-se quando o questionamento filosófico se insurge. Decaídas as fantasias da crença, revoluciona-se o aspecto do mundo no primeiro momento contemplativo de um insubordinado advento da dúvida.

Por isso, a Filosofia tem como tarefa reposicionar os problemas, não resolvê-los. Cabe a ela investigar o desenvolvimento dos conceitos e não produzi-los. Isso significa que se desnudam problemas no aparentemente simples, naquilo que era posto “até ontem” como a ordem natural das coisas, o inquestionável.

Com efeito, se a ordem precisa ser mantida, a Filosofia é então o fato insubordinado, o discurso perigoso que precisa ser calado. Isso nos leva diretamente a entender o motivo, por exemplo, de muitas pessoas terem medo da Filosofia. Bastou que ela voltasse para o currículo do ensino médio nacional para que alguns setores da sociedade se erguessem contra, por meio do programa “Escola sem Partido”.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 137

 

*Douglas Rodrigues Barros publicou seu segundo romance, um dos ganhadores do concurso realizado pela Editora Urutau, intitulado Os terroristas? É doutorando em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo, membro do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia (CEII), colunista no Observatório Veias Abertas e editor-chefe
da revista Campo Aberto.

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