O sofrimento negligenciado dos animais

Reflexão acerca dos maus tratos aos animais que ingerimos

Por Daniel Borgoni / Adaptação Web Rachel de Brito

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Nós, animais humanos, dispomos de uma variedade de alimentos para compor a nossa dieta. Entre eles, as carnes de boi, porco, frango e peixe são algumas das mais consumidas. De fato, o consumo de carne e dos seus derivados é feito diariamente por parte considerável dos humanos. Vide que “todos os anos, mundialmente, cerca de 45 bilhões de animais são mortos para servir de comida” (Jamieson, 2010, p. 190).

Embora comer carne seja algo corriqueiro e naturalizado, urge refletirmos sobre o modo como são tratados os animais para abate, principalmente na criação intensiva, tendo em vista que muito sofrimento é infligido a eles ao longo das suas encurtadas e limitadas existências. Esse olhar reflexivo também deve incidir sobre a produção comercial de leite e ovos, pois acontece o mesmo.

Se o sofrer é uma constante na produção dos alimentos de origem animal, temos uma questão ética que é negligenciada por produtores e consumidores: se animais são seres sencientes, isto quer dizer, capazes de sentir dor e prazer, e se ações humanas ditam o modo como eles vivem, causando-lhes sofrimento, então devemos questionar se tais atos estão eticamente justificados, ou seja, se estão corretos.

Dizer que os modos como são tratados os animais para consumo têm legitimidade porque há respaldo social não é justificativa minimamente razoável, pois a naturalização de um comportamento não é garantia de que se está agindo corretamente. Atestam isso o racismo avalizado pela sociedade escravocrata brasileira e o sexismo que impedia a mulher de votar.

Apelar à cultura para justificar certo hábito alimentar também não é aceitável, uma vez que normas culturais podem ser modificadas em benefício de valores com maior relevância moral. Posto isso, apresentarei neste artigo alguns fatos que mostram de forma inequívoca as mazelas pelas quais passam os animais para que as pessoas possam comer a sua carne, os seus ovos, o seu leite e os respectivos derivados.

Os fatos

Em geral, os animais que comemos e os produtos deles derivados vêm da criação intensiva. Embora existam instituições que regulam esse tipo de agronegócio, estresse, mutilações e sofrimentos de toda ordem estão presentes na produção de produtos de origem animal.

Vejamos algumas situações que atestam isso. Os frangos de corte são confinados de tal modo que o espaço individual para cada ave é tão restrito que eles ficam permanentemente em contato uns com os outros durante toda a sua vida. Para que eles não percam tempo escolhendo o seu alimento e engordem rapidamente, maximizando os investimentos, é comum cortar-lhes o bico.

Como a superpopulação de frangos gera agressividade, tenta-se contornar isso diminuindo a luminosidade do ambiente, pois “quando há luz normal, o estresse provocado pela superlotação e a ausência de escapes naturais para a energia das aves levam à deflagração de brigas, nas quais os frangos bicam as penas uns dos outros e, às vezes, matam-se e comem uns aos outros” (2010, p. 146). Contudo, além de não eliminar a agressividade, as aves “não habituadas à luz intensa, a ruídos fortes ou a outras fontes de perturbação podem entrar em pânico em função de alguma alteração súbita” (2010, p. 152).

Muita dor está também presente na criação de suínos e de bovinos. Os porcos sofrem de obesidade e artrite por terem os seus movimentos limitados, costumam apresentar comportamentos estereotipados, tais como roer as celas que os prendem e “nos ambientes superlotados em que vivem, esses animais, normalmente dóceis, às vezes recorrem ao canibalismo” (Regan, 2005, p. 112).

Os bois têm seus chifres retirados para ocuparem menos espaço e não se machucarem, e são castrados para que os bezerros engordem mais rápido, denuncia Singer (2010, p. 214). Na produção da carne de vitela o jovem animal é submetido a uma vida miserável, haja vista que “a essência dessa produção é a alimentação desses animais confinados e anêmicos com uma ração altamente proteica” (Singer, 2010, p. 190). Os seus joelhos ficam inchados e doloridos devido à posição estática em que os bezerros são obrigados a ficar.

E, como não poderia deixar de denunciar, o foie gras (fígado de ganso), iguaria culinária cultuada por certos chefes de cozinha, envolve um processo de alimentação forçada no qual um funil é introduzido na garganta do animal.

Na produção de leite e de ovos, os animais não humanos também sofrem muito. Na pecuária leiteira, as vacas se tornam máquinas de produzir leite, tendo em vista que “produzem até 44 litros de leite por dia, dez vezes sua capacidade normal. Esse excesso de peso tensiona o peito e agrava os danos aos joelhos e quadris” (Regan, 2005, p. 117). Acrescente-se que muitas vacas sofrem de mastite, uma inflamação nas glândulas mamárias. E as galinhas poedeiras são presas de tal maneira que mal podem abrir as suas asas, ficando impossibilitadas de construir ninhos e neles botar ovos. Isso é uma fonte de sofrimento tão grande que o respeitado etólogo Konrad Lorenz afirmou que é a pior tortura que uma galinha pode sofrer (cf. Singer, 2010, p. 168).

Não bastasse vivermos numa sociedade na qual parte majoritária da população não está ciente do exposto, as agências publicitárias mostram o contrário. É comum vermos comerciais de achocolatados com vacas sorrindo, frangos felizes e saltitantes nos comerciais de indústrias de processados, animais sorrindo nas embalagens de alimentos de origem animal, enfim, não faltam propagandas que criam um simulacro da realidade do que acontece nos aviários, currais, granjas etc.

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição 139 da revista filosofia

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