O que é justo?

“Não é justo!!!” O que é de fato justiça? Os vários sentidos que empregamos na vida cotidiana estão coerentes com o que justiça pode significar?

Por Cassio Donizete Marques* | Foto Shutterstock | Adaptação web Tayla Carolina

“Professor, eu estudei tanto e não tirei nota, o meu colega não estudou nada e tirou 10, não é justo.” “Acabei de comprar o carro e um ladrão o roubou, não é justo.” “Eu não roubei a casa da senhora, não é justo ir preso.” Esses e outros exemplos demonstram como a ideia de justiça está sendo aplicada em quase todas as situações.

Porém, são situações distintas e muitas vezes não se trata de justiça ou não. Uma análise mais cuidadosa das situações acima é suficiente para demonstrar que o argumento/justificativa para a conclusão não é o mesmo. Nem todo raciocínio acima pode terminar com: não é justo.

Por que não é justo ter estudado muito e não tirar nota? Vamos imaginar que você estudou muito e mesmo assim não aprendeu. Como quer tirar nota? Vamos imaginar que seu colega, que não estudou, tenha compreendido todo o conteúdo que o professor passou em sala, qual é a injustiça de ele tirar nota na prova sem ter estudado?

Ao dizer que não é justo você que estudou não tirar nota e o colega que não estudou tirar nota, no fundo você está dizendo que é injusto quem não estuda tirar nota. Me pergunto: por que é injusto estudar e não tirar nota e não estudar e tirar nota? Em que sentido o termo justiça está sendo empregado nessa situação?

Qual a relação causal entre ter acabado de comprar o carro e ter sido roubado com a questão da justiça? Quanto tempo a pessoa tem que ficar com o carro para depois ser justo roubá-lo? Existe tempo justo para depois poder fazer o roubo? Existe roubo justo?

Coloque um comunicado no seu carro: acabei de comprá-lo, não é justo roubá-lo, volte daqui seis meses! Não estou aqui defendendo o roubo, mas mostrando a complexidade de algumas afirmações feitas sem a devida reflexão. O que é injusto no caso do roubo do carro? O terceiro exemplo parece ter uma relação mais direta com a questão da justiça.

Se não foi você quem roubou não é justo ser preso, não é justo pagar por algo que não cometeu, ou seja, prendê-lo será um ato de injustiça. Inclusive participei de alguns tribunais do júri e sempre ouvia o advogado de defesa fazer a seguinte observação: é melhor mil bandidos soltos do que um inocente preso. Esta afirmação parece, numa análise rápida, bastante aceitável, principalmente se o inocente preso for você.

 

*Cassio Donizete Marques é professor de Filosofia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp).

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 138

 

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