O papel da maiêutica na luta de gigantes e nos gêneros supremos

Os diálogos de Platão e Sócrates na formulação de teorias filosóficas

Por Robson Gabioneta* | Adaptação web Renê Saba

Pretendemos neste texto testar algumas hipóteses acerca do modo platônico de investigar e criar teorias filosóficas. Platão, no diálogo Sofista, coloca o Estrangeiro de Eleia para dialogar com o jovem Teeteto a respeito de alguns filósofos que teorizaram sobre o ser, e provocar o que ficou conhecido como “luta de gigantes”. A partir dessa investigação, ele propõe uma teoria sobre o ser, ou sobre os seres, os gêneros supremos.

O debate entre os especialistas, em geral, se dá acerca da relação desse momento com a teoria das ideias, com uns defendendo o rompimento com a teoria das ideias, outros defendendo a manutenção da mesma, e outros uma reformulação. Não será esse o nosso foco da pesquisa, nos interessa mais como Platão investiga e menos a que conclusões ele chega. Assim, nossa primeira investigação será comparar a maiêutica – tal como Sócrates a apresenta e a pratica no diálogo Teeteto – com o modo como o Estrangeiro de Eleia investiga os que falaram sobre o ser, e a partir dela como ele formula a teoria dos gêneros supremos. Nossa hipótese inicial é que o Estrangeiro utiliza-se de alguns mecanismos socráticos, entre os quais destacamos um aspecto da maiêutica: a união de teorias. Outro procedimento que pretendemos investigar é a oposição de teorias: o Estrangeiro em alguns momentos força a união entre teorias que não se combinam a fim de explicitar aspectos obscuros e com isso identificar suas potencialidades.

Merlí e a Filosofia

ETAPA II: INVESTIGAÇÕES PLATÔNICASPOR CAUSA DE SÓCRATES

Os principais problemas apontados pelos intérpretes acerca da maiêutica são: por que apenas no final da sua vida Sócrates revela seu modo de dialogar? Haveria alguma distinção desse procedimento com as práticas de Sócrates nos outros diálogos, em especial com a reminiscência apresentada no diálogo Mênon? Estando a maiêutica dentro de um diálogo de maturidade, haveria alguma relação entre ela e a teoria das ideias? Sendo esse diálogo aporético, a maiêutica teria alguma relação com essa aporia? Qual a relação entre a maiêutica e a dialética? Essa prática é de Sócrates ou de Platão? Por fim, esse procedimento é praticado por outros personagens nos diálogos seguintes ao Teeteto, em especial ao personagem Estrangeiro de Eleia no diálogo Sofista?

O corpo pós-moderno

Vejamos como alguns comentadores discutem essas questões:

Engler diz que, desde a Antiguidade, se compara a maiêutica com a teoria da reminiscência, porém uma diferença significativa entre as duas está no fato de que no diálogo Teeteto é Sócrates quem diz o que acontece com seu interlocutor quando está em sua companhia. Nos outros diálogos, em especial Mênon, Laques e Banquete, são os interlocutores de Sócrates que tentam explicar seus procedimentos.

Por que filosofar?

Já Santos (2008, p. 25), por sua vez, aponta que, para Scolnicov, a maiêutica e a reminiscência são duas faces da mesma moeda. Já “para Jaeger (2001, p. 527), o método socrático
[a maiêutica] se faz de duas partes: refutação (elenchos) e exortação (protreptipkos)”.

Szlezák diz que a maiêutica não é um novo método, mas uma nova interpretação do método socrático. Para ele, esse procedimento é composto de três partes: 1) Sócrates não seria capaz de produzir ou dar opinião sobre coisa alguma; 2) mas pode julgar se o que do outro é verdadeiro ou falso; 3) “Assim como as parteiras, Sócrates dispõe da arte de reunir os interlocutores certos para a geração intelectual”.Esse último ponto, a reunião de interlocutores e/ ou teorias, será, como veremos, um aspecto praticado por Sócrates na primeira definição de conhecimento e, em certa medida, também adotado pelo Estrangeiro de Eleia na investigação sobre aqueles que falaram sobre o ser no diálogo Sofista. O Estrangeiro utiliza-se de métodos ditos socráticos, em especial a união de teorias, para nós uma parte da maiêutica, para investigar as teorias sobre o ser dos chamados pré-socráticos e posteriormente formular a sua própria teoria sobre o ser (ou os seres): os gêneros supremos.

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 138

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