O inverno está aqui

Pensando a política a partir da série Game of Thrones

Por Fhoutine Marie* | Adaptação web Tayla Carolina

O inverno está chegando.” A frase lema da família Stark, um dos principais núcleos da série Game of Thrones, faz referência à transitoriedade dos tempos tranquilos. Na saga criada por George R. R. Martin e adaptada para televisão pelo canal HBO, as estações duram vários anos.

Desse modo, é preciso não esquecer que a história é cíclica e que tempos de paz e prosperidade podem ser sucedidos por temporadas de guerras e escassez. Na série, o fim dos tempos tranquilos e início de turbulências é inaugurado com a morte do rei Robert Baratheon e pelas disputas por poder que se instalam daí em diante entre os grupos que até então faziam parte daquele governo.

Em meio a batalhas, reviravoltas, seres fantásticos, alianças improváveis, os Sete Reinos vivem uma situação caótica, na qual a relativa paz consolidada no reinado de Robert é aniquilada pelas disputas entre facções rivais. Embora seja ambientada em um universo livremente inspirado na Europa da Idade Média, a trama de Game of Thrones pode ajudar a pensar diversas questões políticas atuais, como a participação das mulheres na política, massacres de populações nativas por colonizadores, formas de associação política não estatais, entre outros.

É importante mencionar que esta não é a primeira iniciativa de produção de conhecimento a partir da série, que já foi tema de cursos nas conceituadas universidades de Berkeley e Harvard. Em um artigo publicado no livro Tem saída? – Ensaios críticos sobre o Brasil, lançado no final de 2017 pela Editora Zouk em parceria com a Casa da Mãe Joanna (CDMJ), apontei elementos da série para pensar a crise política a partir das manifestações de 2013, de uma perspectiva contra o Estado. Minha proposta neste ensaio é pensar sobre os caminhos tomados pelos roteiristas a partir da última temporada, que, ao meu ver, reforçam visões problemáticas a respeito da política.

Alerta de spoiler das temporadas passadas

A sétima temporada de Game of  Thrones causou discórdia entre o público da série, pois parte da crítica e de seus espectadores considerou que os roteiristas se tornaram adeptos do fan service. Esse recurso consistiria em corresponder às expectativas e teorias dos fãs optando por um desfecho mais tradicional e previsível.

No caso, estamos falando da confirmação de algumas teorias muito populares em grupos de discussão na internet, como o aparecimento do dragão de gelo, o relacionamento amoroso entre Daenerys e Jon Snow e a revelação de que Snow não é um bastardo, mas o legítimo herdeiro do trono de ferro.

 

→ Fé e Filosofia Política

 

A opção dos roteiristas e produtores da série de destacar um personagem masculino em uma história que aborda o questionamento de papéis tradicionais de gênero por si só já é problemática. Trata-se de uma escolha que vai na contramão de uma tendência de mostrar protagonismo feminino nas produções televisivas e cinematográficas nos gêneros de ação, aventura e afins, como tem ocorrido nos últimos anos em produções como a franquia Star Wars, nas narrativas de super-heroínas, como Jessica Jones e Mulher Maravilha, e em animações voltadas para o público infantil, como Valente, Frozen e Moana.

Trata-se também de uma tomada de posição. A série já foi bastante criticada pelo excesso de nudez feminina e de usar a violência sexual contra mulheres como recurso narrativo, transformando cenas que nos livros eram de sexo consensual em estupros.

Contudo, essas críticas eram contrabalanceadas com o crescimento das personagens femininas e pela ascensão de duas rainhas. A escolha de Jon Snow como herdeiro legítimo, em diálogo com as expectativas dos fãs da série, tende a reforçar estereótipos ingênuos e um tanto quanto nocivos a respeito do exercício do poder político, a começar pela concepção de poder como um atributo masculino.

A ideia de a arena política e da vida pública em geral ser reservada aos homens é criticada ao longo de toda a série. Já na primeira temporada a personagem Arya Stark demonstra interesse pelo treinamento com armas. Arya não quer ser esposa ou mãe de um guerreiro valente, ela quer ela mesma ser uma guerreira implacável e não descansa até conseguir realizar esse propósito.

Ela é apenas uma das personagens a questionar e recusar o papel designado para as mulheres de seu meio social no contexto da trama, que é tornar-se esposa de um homem nobre importante e gerar herdeiros. Nesse sentido é importante lembrar que a trajetória das duas rainhas que emergem ao final da sexta temporada têm em comum o fato de serem mulheres, apesar de seu privilégio de nascimento nobre, não receberam uma educação que lhes permitisse almejar tornar-se governantes.

 

*Fhoutine Marie é doutora em Ciência Política e presta serviços de coaching acadêmico, revisão e edição de texto por meio da página Fhoutine Marie Assessoria Acadêmica. É uma das autoras do livro Tem Saída? – Ensaios críticos sobre o Brasil, publicado no final de 2017 pela Editora Zouk/Casa da Mãe Joanna. Seus trabalhos visam discutir a política e resistências através de uma perspectiva não institucional.

 

Para ler o artigo na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 136