O corpo em modificação além da evolução.

Por Walter Cezar Addeo / Adaptação Web Rachel de Brito

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Prepare o seu coração para o que revelou a exposição da Galeria INK denominada A Diversidade É Linda, curadoria de Tiago Correia de Lira e conceitualmente
ligada ao “Manifesto Freak” de T. Angel.

Bem, nem sempre a diversidade atende a todos os gostos estéticos (muitas vezes, como nessa exposição, é um corpo sadomasoquista que nos é apresentado), mas, sem dúvida, a diversidade é sempre instigante e nos faz refletir para além do convencional, esse eterno carimbo mental naturalizado como “o normal”. Para essa exposição caberia lembrar a frase de Yoko Ono, “o corpo é a cicatriz da alma”, e o fato de que o tempo modifica o corpo incessantemente.

Em outra chave, consideremos que emblemas extremos da diversidade muitas vezes estão apontando para algo que está sendo gestado dentro da cultura, mas ainda não é totalmente visível.

Fotos, pinturas, colagens e desenhos são utilizados na exposição para ilustrar tatuagens bizarras, escarificações, aplicação de piercings e outros métodos de modificação corporal.

Não é de hoje que a humanidade vem tentando modificar o próprio corpo, como se a evolução biológica não tivesse explorado todas as possibilidades. Então o imaginário humano intervém e completa o que não foi feito.

Desde as unturas e desenhos corporais mais antigos que datam da Pré-história, o ser humano tenta recriar um corpo modificado para efeitos psicológicos e sociais. Pertence à Pré-história o uso dos primeiros piercings com penas de aves e ossos atravessando o nariz, lábios e orelhas.

Escarificações na pele também têm uma longa história, principalmente entre os aborígenes do Pacífico. A pergunta relevante é: por que a humanidade sempre tentou modificar o corpo numa prova de que nunca esteve totalmente satisfeita com o que herdou geneticamente? Talvez porque sonhassem com um corpo magnificado, mais poderoso e melhor. Todas essas modificações, inconscientemente, poderiam estar apontando para algo muito longe, no futuro, mas que, neste século XXI, já se esboça como possível.

A transição da humanidade para corpos ciborgues. De certa forma, timidamente, já somos um pouco ciborgues. Como já se apontou várias vezes, levamos implantes cirúrgicos dentro do nosso corpo, próteses de titânio no lugar de alguns ossos, válvulas de carbono, lentes de contato oculares, implantes subcutâneos, próteses auditivas, marca-passos etc.

Atualmente todos dependem de uma prótese móvel chamada celular. Então, já somos meio-humanos e um pouco máquinas. Algumas tatuagens parecem nos lembrar disso. Tatuagens que ilustram estruturas metálicas embaixo da pele e músculos.

Os piercings antecederam, como ideia, todos os implantes que um dia seriam feitos cirurgicamente. Essas considerações sobre um corpo ciborgue discutidas atualmente nas áreas da Filosofia, da Sociologia e da arte já possuem, inclusive, seu manifesto. O bastante citado “Manifesto Ciborgue”, de Donna J. Haraway, cuja primeira publicação já tem mais de 30 anos.

Muita água rolou desde então sobre a perspectiva de que finalmente estaríamos próximos de obter um corpo híbrido máquina-homem. Por enquanto a biotecnologia mantém uma fronteira ainda não ultrapassada. De um lado estamos nós seres humanos já extremamente dependentes de máquinas e próteses diversas, tecnologias invasivas ou vestíveis, como se fossem pedaços fragmentados de ciborgues a nos parasitar. Do outro lado da fronteira, a ideia de um ciborgue total com mente e memória humanas ainda a ser alcançado, mas que parece estar cada vez mais próximo.

Um dia atravessaremos a fronteira. Essa possibilidade de transferirmos nossos corpos baseados em carbono para estruturas mais perenes é uma mudança de paradigma total. Talvez a maior utopia já pensada pelo homem. O momento em que o Homo sapiens criará seu próprio Adão modificado.

Equivale, para efeitos de ilustração, à mudança paradigmática dos instrumentos mecânicos da primeira revolução industrial para os equipamentos eletrônicos baseados em microchips. É outra dimensão, é outro mundo. Um ponto de não retorno. Um corpo totalmente modificado, por sua vez, altera a noção que temos do que seja um sujeito estruturante, do que seja um ego psicológico.

Com o trânsito definitivo para um corpo ciborgue, chega-se, finalmente, à questão da extensão da vida, assunto que extrapola este texto.

Exposições como esta, da Galeria INK, são, portanto, bastante interessantes, pois nos lembram de que o desejo por um corpo ciborgue é antigo, muito antigo na humanidade. Um sonho reincidente, um inconsciente coletivo atuando. Enquanto ele ainda não é possível, experiências estéticas diversas tentam modificar o corpo insistentemente até o limite do totalmente bizarro, apontando para formas escatológicas do pós-humano.

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