Merlí e a Filosofia

Por Renato Janine Ribeiro* | Adaptação web Tayla Carolina

Fiquei encantado com a série Merlí, da TV catalã, atualmente na Netflix. São três temporadas. Merlí é um professor de Filosofia no ensino médio, que envolve seus alunos falando-lhes de temas ligados à vida deles. Cada episódio tem um conflito principal – e para cada episódio temos um filósofo.

O que Merlí conta de cada pensador é sintético – caberia em 15 linhas –, mas é o essencial para discutir a questão em jogo. Assim, chega à escola uma professora trans, que por isso mesmo encontra dificuldades em toda parte. Merlí fala então aos alunos de Judith Butler, a filósofa norte-americana que hoje é a referência nos estudos de gênero.

Ou, a caminho da escola, três alunos se deparam com um suicídio. Merlí vai lhes falar de Albert Camus, o grande escritor existencialista das décadas de 1940 e 1950, que certa vez afirmou: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio”.

E explica: é a pergunta sobre o sentido da vida, mas não um sentido dado e pronto, como a religião talvez gostasse, mas um sentido que cada um descobre e/ou cria para si próprio. Ele rompe com convenções. A primeira aula acontece na cozinha.

Outras, andando. Quando chega à escola, descobre que um aluno não aparece há meses, por não aguentar o bullying dos colegas, ou de um colega em particular. Merlí vai à casa do jovem, passa semanas conversando com ele, até que o reintegra no convívio social. Não há personagens do mal.

Mesmo os “vilões”, por assim dizer, acabam se abrindo para a vida, em parte graças a Merlí. O garoto que fez bullying, outro que roubou o laptop do colega, o professor autoritário, todos acabam se entendendo. É um grande experimento social em que, pelo bom uso da Filosofia, cada um descobre melhor quem é: na frase famosa, “torna-se quem é”.

Há alunos que estão a ponto de largar o curso, mas que Merlí convence a ficar, e até mesmo ajuda a encontrar sua vocação. O que não significa que, mais tarde, consigam emprego. A crise econômica e ética da sociedade está à espreita. Os políticos são denunciados como corruptos. O desemprego aparece com todo o seu poder.

 

*Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 138

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