Kant e as bases para a Modernidade

Considerar as ciências, como a Matemática e a Física, como modelos de conhecimento e construir uma sólida crítica à razão por meio de suas obras são importantes contribuições de Immanuel Kant para a consolidação da Modernidade

Por Vicente Eduardo Ribeiro Marçal* | Adaptação web Tayla Carolina

Ao buscar-se uma compreensão do processo de consolidação da Modernidade, principalmente no que tange à teoria do conhecimento, é fundamental uma abordagem da imensa contribuição que o filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) nos deixou. Bem vale lembrar que foi em “[…] Kant, por cujo questionamento lógico-transcendental a teoria do conhecimento atingiu pela primeira vez consciência de si mesma […]”.

A obra kantiana é extremamente complexa. Ele “[…] discriminava três faculdades da mente humana: conhecer, julgar, querer […]”, pois a sua preocupação está em compreender todo o processo do conhecimento humano e como este influi no cotidiano.

Não podemos aqui simplesmente dividir a obra kantiana para que possamos abordar um aspecto que nos pareça relevante, isso, com certeza, fará com que nossa interpretação seja parcial e incorreta. O trabalho desse filósofo se dá nessas três vertentes e sob elas é que deve ser interpretado.

Teoria do conhecimento

É nosso objetivo aqui analisarmos de forma isolada a teoria do conhecimento de Kant, para que possamos chegar a uma compreensão profunda da mesma. Teremos em mente que ela não está dissociada das teorias moral e estética e apontaremos, caso se fizer necessário, as relações estabelecidas por Kant em sua tríade conceitual. Kant inicia a introdução da Crítica da razão pura afirmando que:

Não há dúvida de que todo o nosso conhecimento começa com a experiência; do contrário, por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser despertada para o exercício senão através de objetos que toquem nossos sentidos e em parte produzem por si próprios representações, em parte põem em movimento a atividade do nosso entendimento para compará-las, conectá-las ou separá-las e, desse modo, assimilar a matéria bruta das impressões sensíveis a um conhecimento dos objetos que se chama experiência? […].

Ele afirma que todo conhecimento tem início na experiência, contudo vai mais longe que Hume, aquele que o despertou do sono dogmático, acrescentando que isso não implica necessariamente que todo conhecimento provenha da experiência, mas que poderia muito bem “[…] acontecer que mesmo o nosso conhecimento de experiência seja um composto daquilo que recebemos por impressões e daquilo que a nossa própria faculdade de conhecimento […] fornece de si mesma […]”.

Assim, Kant chega à conclusão de que temos três possibilidades de juízos: analíticos, sintéticos a priori e sintéticos a posteriori. Sua concentração maior se dará em demonstrar a existência dos juízos sintéticos a priori. Como nos afirma Hansen:

O movimento argumentativo kantiano tem por objetivo demonstrar a imperiosidade dos juízos sintéticos a priori, posto que os mesmos são os únicos a possuírem o caráter de universalidade e necessidade que evitam a forçosa assunção de uma atitude falibilista e relativista com relação ao conhecimento. Ademais, graças ao seu caráter sintético, eles garantem o progresso do conhecimento e afastam a possibilidade do dogmatismo baseado em verdades absolutas e conhecimentos imutáveis.

A grande questão que Kant se coloca é: “[…] o verdadeiro problema da razão pura está contido na pergunta: como são possíveis juízos sintéticos a priori?”. Vemos então, já na introdução de sua obra, que Kant pretende ir além da Metafísica tradicional, como também das correntes filosóficas predominantes de seu tempo, tais como racionalismo, empirismo e ceticismo, aproveitando as contribuições que essas correntes modernas da Filosofia lhe legaram, principalmente da crítica cética de David Hume, levando às últimas consequências e sendo radicalmente distinto dessa.

[…] David Hume, que dentre todos os filósofos mais se aproximou desse problema [responder à questão dos juízos sintéticos a priori] sem contudo sequer de longe pensá-lo determinado o suficiente e em sua universalidade, mas se detendo apenas na proposição sintética da conexão do efeito com suas causas (principium causalitatis), creu estabelecer que tal proposição a priori fosse inteiramente impossível; segundo suas conclusões, tudo o que denominamos Metafísica desembocaria em mera ilusão de uma pretensa compreensão racional daquilo que de fato foi simplesmente tomado emprestado da experiência e que pelo hábito se revestiu da aparência de necessidade.

Essa afirmação de Kant aponta para a limitação de que Hume não tenha compreendido a questão em sua universalidade e que, se seu argumento fosse válido, não teria possibilidades de haver uma ciência que contivesse juízos sintéticos a priori, como a Matemática e a Física (chamada, por ele, de ciência da natureza).

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Filosofia – Ed. 137

 

*Vicente Eduardo Ribeiro Marçal é professor do Departamento de Filosofia da Unir. Doutorando em Psicologia Social pelo IP-USP. Mestre em Filosofia pela FFC-Unesp. Coordenador do Gepedra – Grupo de Estudos e Pesquisa em Epistemologia Genética da Região Amazônica (CNPq).