O Humor e o Riso

Veja pensamentos e reflexões sobre o humor e o riso de acordo com a Filosofia

Humor e riso

Eu perco o amigo, mas não perco a piada!”. Esta frase clássica de uso dos comediantes amadores no dia-a-dia é um exemplo do quanto o senso comum percebe que o humor abrange terrenos além da risada. Dependendo da situação, uma brincadeira pode gerar brigas e rompimento de relações.

Pessoalmente falando, sempre percebi que me sinto mais confortável numa relação interpessoal quando consigo despertar o riso no outro. Creio que essa intuição aponta para o mesmo caminho da frase inicial: o humor pode nos levar além da piada, como é o caso das relações humanas, por exemplo.

Inicialmente, considerando o título do texto proposto, poderíamos levar em consideração os diferentes humores classicamente descritos na teoria dos quatro humores como compreensão médica e psicológica do Homem.

Porém, o foco aqui proposto é para o significado mais usual da palavra humor, ou seja, o riso e a diversão com uma delimitação mais específica entre todas
essas possibilidades emocionais.

Uma percepção inevitável sobre o riso é a de que ele se mostra como aquilo que Wilhelm Wundt (1832-1920), fundador oficial da Psicologia como ciência, chamou de Experiência Imediata. Wundt elegeu justamente a experiência imediata como o principal objeto de estudo da Psicologia (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009).

A experiência imediata é aquela que não tem mediação racional. Ela é vivida sem que haja tempo de se pensar sobre a experiência. É como acontece o riso, muitas vezes incontrolável, impossível de ser contido quando vem de maneira mais intensa, gerando ataques de riso ao contrário do desejo da formalidade e do controle racional.

Da mesma forma, outras experiências também se dão: o orgasmo, o susto, entre outras. Reafirmamos, porém, que, entre as experiências imediatas, o foco
aqui é no riso.

Conforme abordado no penúltimo parágrafo, podemos percorrer a partir daqui sobre uma das dicotomias clássicas. Nesse caso, entre razão e emoção. A razão sempre ligada à experiência mediada (pela própria razão, é claro), e a emoção (no caso, o riso) acontecendo de forma imediata.

Se o “empreendimento de pensar”, ou seja, o pensar ativa e metodicamente constitui a essência da Filosofia, pensar sobre as experiências que vivo sem pensar, torna-se desafiador.

Razão

O desafio maior talvez seja porque o resultado dessa reflexão pode trazer justamente um questionamento da soberania da razão, o que nos traz a necessidade de resgatar filósofos antirracionalistas, como, por exemplo, Nietzsche e Freud. Ambos viram que a razão muitas vezes está sob o comando, respectivamente, da moral e dos desejos.

Uma das características das experiências imediatas é que nem sempre é fácil provocá-las. Entre os atores, parece ser unanimidade a constatação de que a comédia é o gênero mais difícil de interpretar.

Tal desafio levantou a curiosidade não só dos atores, mas também de diversos pensadores da Filosofia. Pensadores como Aristóteles, Cícero, Quintiliano, Descartes, Hobbes, Spinoza e Bergson se colocaram a questionar sobre o riso, sua origem, processo e efeitos.

Não será possível expor o trabalho de todos aqui, pois amplia em muito o objetivo atual. Entre tantas hipóteses do que suscitaria o riso e a risada, muitos afirmam suas diferentes formas de manifestação e origem, como, por exemplo, defendendo a ideia de que o riso sempre traz consigo zombaria, escárnio, desprezo e ódio. Descartes era um dos defensores dessa teoria (DESCARTES, 1998).

Também exploram outros elementos presentes nos momentos disparadores do riso, como o espanto ou a admiração. Cada formação do riso liga-se com uma forma diferente de emoção. Se o riso vem da admiração está mais relacionado à alegria e à felicidade. Quando vem do escárnio, é o ódio que o ronda por perto.

Uma das teorizações mais interessantes sobre o riso, porém, é feita por Quintiliano (35-95 d.C.), pensador romano influente na Filosofia e no Direito, advogado, orador e professor de retórica.

Quintiliano levanta uma característica interessante sobre o humor que costumava utilizar como técnica de oratória para defender seus argumentos. Para ele, há grande vantagem para ganhar o debate se conseguir levantar os sentimentos mais profundos daqueles que decidem os casos. Isso pode ser feito através do
humor produzido a partir de uma origem específica: o sentimento de pena (QUINTILIANO, 1954).

Quintiliano desenvolve então sua maneira de utilizar o riso que parte do sentimento de pena para uso no ofício do Direito. Se conseguir arrancar risadas, consegue diminuir a ação dos adversários e engrandecer o próprio argumento. É possível compreendermos a estratégia de origem do riso utilizada por Quintiliano ao identificarmos o quanto certas atuações se utilizam do sentimento de pena para despertar o riso.

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Por André Roberto Ribeiro | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

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