Flores, alma e filosofia clínica

Por Lúcio Packter / Adaptação Web Rachel de Brito

FILOSOFIA CLÍNICA CRÔNICA FILOSÓFICA

José considerou uma varanda no jardim e a encheu de cor, com pétalas delicadas, longas, finas. Secou bem o solo, colocou matéria orgânica. Por ser em canteiros, sabia que a rega deveria ser generosa; e foi.

Enquanto isso, Jadilson refletia sobre a causa da derrota de um episódio do proletariado, de Rosa Luxemburgo, de 1902: “O desmoronamento repentino da grande ação da classe operária belga, para a qual estavam dirigidos os olhares de todo o proletariado internacional, é um duro golpe para o movimento de todos os países. Seria inútil nos consolar com as frases gerais habituais dizendo que a luta só está adiada, que cedo ou tarde também ganharemos na Bélgica. Para julgar tal ou qual episódio da luta de classes, não basta considerar a marcha geral da História, que, no fim das contas, nos beneficia. Esta não é mais do que a condição objetiva de nossas lutas e vitórias. O que é preciso considerar são os elementos subjetivos, a atitude consciente da classe trabalhadora combativa e seus chefes, atitude que aposta para assegurarmos a vitória pelo caminho mais rápido. Desse ponto de vista, imediatamente depois da derrota, nossa primeira tarefa é darmos conta o mais claramente possível de suas causas”.

Jadilson dizia que José era um alienado, ainda que José conhecesse o texto de Rosa Luxemburgo, mas de uma outra perspectiva. José considerava Rosa Luxemburgo a partir de pequenas árvores que ele cultivava junto a calçadas.

Jadilson desenvolveu-se rumo a filósofos como Feyerabend: “Hoje, muitos cientistas querem nos fazer acreditar que a pesquisa científica não é tão conservadora como o trecho que pensei de Monod parece indicar. Há um espírito artístico, dizem eles, há ‘criatividade’, ‘imaginação’, metáforas, analogias, ‘dimensões estéticas’ etc. Além disso, existem hoje teorias científicas que parecem valer, seja para a matéria, seja para os movimentos do espírito. Tudo isso soa muito bem, mas tem pouca influência na prática cotidiana e nas ramificações institucionais da pesquisa. Onde encontramos uma equipe científica que ganhou prêmios por suas realizações estéticas? Onde está o periódico que aceita artigos por conterem alguma inspiração criativa? Wolfgang Pauli, físico de destaque e ganhador do Prêmio Nobel, lamentava a separação moderna entre ciência e religião, mas guardava a maioria de suas ideias consigo mesmo – por medo de ser ridicularizado. Além disso, quem é essa criatura “arte” a quem os cientistas cortejam com tanta empolgação?” – e por isso Jadilson olhava na distância o modo de ser de José. Onde anda você, José? O que é feito de você no mundo, José? José? Não percebe a urgência do mundo, José? Não constata a aflição de Jadilson?

José respondia com arbustos longos, altos, ramificados. Respondia com romãzeiras dando sombra, descanso para bancos, para quem atendesse a vida.

Jadilson enviou outro texto para José. José o leu, compreendeu, e novas paisagens surgiram. Texto de Marilena Chaui sobre a violência do neoliberalismo atual: “O que chamamos de neoliberalismo ou economia política neoliberal nasceu com um grupo de economistas, cientistas políticos e filósofos que, em 1947, reuniu-se em Mont Saint Pèlerin, na Suíça, à volta do economista austríaco Hayek, do filósofo austríaco Karl Popper e do economista estadunidense Milton Friedman. Após a Segunda Guerra, esse grupo opunha-se encarniçadamente ao surgimento, na Europa, do Estado de Bem-Estar de estilo keynesiano e social-democrata e, nos Estados Unidos, contra a política do New Deal, implantada por Roosevelt. Navegando contra a corrente das décadas de 1950 e 1960, o grupo elaborou um detalhado projeto econômico e político no qual atacava o chamado Estado-Providência com seus encargos sociais e com a função de regulador das atividades do mercado, afirmando que esse tipo de Estado destruía a liberdade dos cidadãos e a competição, sem as quais não há prosperidade. Essas ideias permaneceram como letra-morta durante os anos 1950-1960, período em que os trabalhadores europeus instituíram novas formas de organização à margem dos sindicatos oficiais – comissões de fábricas, cooperativas de autogestão, novas formas de greve. A mudança ocorreu quando da crise capitalista de 1974, momento em que o capitalismo conheceu, pela primeira vez, um tipo de situação imprevisível, isto é, baixas taxas de crescimento econômico e altas taxas de inflação: a famosa estagflação. O grupo de Hayek, Friedman e Popper passou a ser ouvido com respeito porque oferecia a suposta explicação para a crise: esta, diziam eles, fora causada pelo poder excessivo dos sindicatos e dos movimentos operários, que haviam pressionado por aumentos salariais e exigido o aumento dos encargos sociais do Estado”.

Jadilson foi tomar um café com o amigo. José disse a ele que como resultado dos textos filosóficos e das conversações, agora estava cultivando uma frutífera muito bonita, na realidade era um pequenino arbusto, colocada com afeto em diminutas jardineiras, vasos, o murtilo.

Estavam falando das mesmas coisas, mas Jadilson não compreendia. Pensava que José estava perdendo o trem da história com fantasias inconsequentes. José filosofava com seu jardim e conversava com o mundo.

Por estarmos tratando disso eu pergunto quando eu e você visitamos recentemente as estrelas? Quando foi que consideramos com amor um poema de Cora Coralina e a filosofia de Marx e Smith com alguma sabedoria nas últimas décadas? E quando foi que esquecemos e lembramos de coisas que poderiam ter sido essenciais? E onde estão nossos amigos Jadilson, José e os outros?

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