Filosofia e psicologia

Entenda a turbulenta relação entre essas duas áreas de conhecimento

Por André Roberto Ribeiro Torres | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Filosofia e psicologia

O relacionamento é um tema de alta frequência nas falas proferidas em consultórios psicológicos. Dificuldades para encontrar alguém, dificuldades no namoro ou casamento, terapia de casal, términos de longos relacionamentos, divórcios… todas essas situações surgem com frequência aos ouvidos experimentados dos profissionais da Psicologia.

Mal sabem essas pessoas, porém, as turbulentas relações que a própria Psicologia vive com outras áreas do saber. Surgida como uma menina dos olhos, comportada, bem intencionada e promissora, atirou-se em brigas de casais, promiscuidades múltiplas e DRs (Discussões de Relacionamento) intermináveis. No entanto, esse cenário claramente distante dos limites da curva normal permite uma riqueza na diversidade das experiências existenciais dessa área do saber.

O pensamento psicológico frequentemente se mistura com tantos outros tipos de pensamento: filosófico, biológico, místico, médico, sociológico, pedagógico,  judiciário… A Psicologia pode se relacionar com todos eles de forma interdisciplinar ou complementar, gerando muitos frutos diretos e indiretos. Afinal de contas, onde há gente, há Psicologia. Essa consciência ajudou muito no desenvolvimento desta ciência.

Edmund Husserl, criador da Fenomenologia, chegou a armar que a Psicologia era a ciência fundamental, a partir da qual se ergueriam todas as outras. Passou então a combater o que chamou de psicologismo, ou seja, pensamentos que abordavam os fenômenos psicológicos de forma naturalista, mas sem o rigor defendido por sua fenomenologia (HUSSERL , 2006). Esse destaque tem sido reconhecido pela sociedade.

Segundo o Painel Acadêmico da UOL, o curso de Psicologia ultrapassou o de Medicina em termos de concorrência por vaga nos vestibulares para o ano de 2016 na FUVEST (TRUZ, 2015). O Guia do Estudante reafirma essa tendência e mostra que este não é um fato isolado. Além de dar mais dados sobre o crescimento da Psicologia, demonstra a sua diversidade de atuação e expansão na sociedade costurados com outras variáveis, como o estresse excessivo do mundo atual. Os campos da Psicologia hoje vão muito além da clínica e está em diversos espaços, como a saúde, as empresas, o esporte, o social, o trânsito etc (MATIAS, 2016).

Vamos discutir aqui uma dessas relações que a Psicologia pode estabelecer: a relação com a Filosofia. Apesar da aparência de tanta proximidade, Filosofia e Psicologia mantêm uma relação bastante turbulenta, dessas do tipo “entre tapas e beijos”: separa, não separa, volta, não volta.

Se, de um lado, a Filosofia traz muita preocupação com as aventuras das ciências e cobra fundamentação lógica e coerente de todas elas, incluindo a Psicologia, de outro lado, a ciência acusa a Filosofia de ser apática e afirma que precisa de um caráter pragmático para poder realizar alguma coisa. Enquanto a Filosofia descreve e pensa sobre o suicídio, a Psicologia quer lhe propor um tratamento para que não se mate. Busca-se uma intervenção. Às vezes desastrosa mas busca-se uma intervenção.

Mas, o que é a psicologia?

O senso comum tem várias ideias sobre ela. Ela seria aprender a ter consideração pelas pessoas? Por isso, diversos profissionais que fazem um bom contato com seus clientes afirmam que são “meio psicólogos”? Aprender um jeito manso e carinhoso de falar? Ou, muito pelo contrário, aprender a fazer provocações ácidas, metendo o dedo na ferida alheia? É uma técnica telepática? Por isso os psicólogos são convidados a adivinharem o que os outros estão pensando? Ou desenvolver uma obsessão por todo ser humano que estiver por perto? E por isso muitos acreditam estar sendo analisados quando na presença de um psicólogo.

E a filosofia nessa história?

Uma ciência aplicada que depende de uma forte carga teórica para ser colocada em prática? De fato, o curso de Psicologia é um dos que mais exige leitura e com uma grande carga horária de estágio curricular obrigatório. Esse é o divórcio que diversas ciências zeram da Filosofia, ou ao menos tentaram fazer. Na Modernidade, principalmente na passagem do século XIX para o XX, embora fosse a continuação de todo um encadeamento anterior, aconteceu uma grande emancipação das ciências a partir do pensamento filosófico.

As correntes teóricas que formaram o pensamento científico moderno começavam a concretizar a ideia de romper definitivamente a atitude filosófica da prática científica. O mesmo aconteceu com a Psicologia. Porém, esta ciência em especial nunca teve uma presença despercebida no mundo da epistemologia científica. Enquanto as outras ciências faziam sua passagem com clareza ou aparência de clareza, a escandalosa Psicologia apresentava novos problemas e entraves em cada etapa do processo. Divórcio não é uma coisa simples. Cada pretendente a ser uma ciência independente precisa apresentar fundamentos filosóficos consistentes.

Umberto Eco, por exemplo, expõe quatro quesitos para que um determinado estudo seja considerado científico (ECO, 1983), ele deve:

1. definir seu objeto, que ser reconhecido por outros;

2. demonstrar um conhecimento inédito ou sob uma nova perspectiva;

3. apresentar utilidade;

4. possibilitar sua veri cação, expondo de forma clara as informações.

Os três últimos itens mostram uma característica de direcionamento mais metodológico a serem resolvidos no planejamento do estudo. Mas o primeiro quesito, esse dá pano pra manga para que Filosofia e Psicologia discutam sua relação por muito tempo.

Qual é o objeto de estudo da Psicologia? Esta já é uma pergunta difícil de se esclarecer, pois o objeto não é exatamente um objeto. Este objeto seria uma pessoa ou  algo a ser encontrado em uma pessoa enquanto viva. A relação epistemológica da Psicologia não é a de um sujeito que conhece que observa um objeto a ser conhecido.

A relação é de um sujeito que observa outro sujeito, cujas características e cujo mundo compartilhado se assemelham de forma estranha a outras ciências. Ainda que um geólogo ou um biólogo possam se sentir totalmente conectados à natureza, raramente vai confundir com seus objetos de estudo seus problemas de relacionamento, sentimentos diversos ou sua situação financeira.

Saiba mais sobre essa reflexão em Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131!

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