Filosofia Africana

Compreensão empírica sobre o corpo como gramática filosófica e tradução da personalidade

Por Marcos Verdugo | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Filosofia africana

Entendendo o corpo como “um espaço socialmente informado, que assume repertórios de movimentos e se define como um lugar de produção de conhecimento” (Sabino e Lody 2011, 16), temos que para a compreensão do corpo passemos, primeiramente, pela localização da produção desse corpo, isto é, se todo corpo é fruto de diferentes formas de conhecê-lo, logo, para diferentes formas de saber há diferentes formas de se produzir o corpo.

Em segundo lugar, enquanto um lugar de produção de conhecimento, o corpo produz um tipo especifico de corporeidade que determina tanto as formas afetivas quanto sociais do estar-no-mundo do mesmo corpo.

A compreensão do corpo, portanto, não é meramente o conhecimento fisiológico que explica, ao menos é essa sua pretensão, o seu funcionamento biológico, no sentido de um organismo complexo, do que organicamente podemos compreender como corpo.

Ao contrário, o corpo também pode ser compreendido como portador de energias que determinam uma presença (social, sexual, cultural, política, econômica, espiritual), um corpo individual e um corpo comunitário (Gil 1997).

Desta feita, o corpo é o local onde as “ações cotidianas são espacialmente reorganizadas e codificadas para se estabelecer outras estruturas de informação” (Àjàyí
1998, 18), em outras palavras, o corpo é revelador de algumas das formas pelas quais o imaginário de um determinado grupo cultural diz sobre si mesmo e sobre a atitude interna – também externa – na relação corpo-natureza.

A linguagem do corpo, por conseguinte, faz parte da linguagem dos saberes de um grupo cultural. Estão, assim, marcados no corpo os indícios epistemológicos das diferentes formas de se compreender as interações entre corpos, ritmos, espacialidades e movimentos.

Isso, posto, apresentamos, em linhas gerais, as características deste “espaço socialmente informado”, o corpo, no pensamento ocidental de modo a marcar, ainda que resumidamente, os pontos de divergência com uma possível filosofia africana sobre o corpo. Em busca dessa gramática filosófica do corpo nos concentraremos no imaginário conceitual dos Iorubás, grupo cultural do oeste africano.

Ideia

No pensamento ocidental, a concepção mais antiga e difundida de corpo é a que o considera o instrumento da alma. Ora, todo instrumento pode receber apreço
pela função que exerce, sendo por isso elogiado ou exaltado, ou então pode ser criticado por não corresponder a seu objetivo ou por implicar limites e condições.

Essas duas possibilidades se alternaram na história da filosofia ocidental, o que nos mostra tanto a condenação total do corpo como túmulo ou prisão da alma, segundo a doutrina de Platão, por exemplo, quanto à exaltação do corpo feita por Nietzsche.

Em Platão, há uma construção epistêmica da dualidade do homem: o corpo (material) e alma (espiritual e consciente). O corpo estaria associado ao “mundo sensível”, portanto seria uma cópia distorcida da verdadeira realidade (a ideia), sendo assim, inferior, efêmero e suscetível aos enganos dos sentidos.

Consequentemente, ele é uma sombra do conhecimento: frágil e ilusório. Aristóteles, por sua vez, dá continuidade a ideia de que o conhecimento sensível seria fragilizado, no entanto, não atribui ao intelecto uma existência superior. O corpo e a alma seriam componentes do princípio vital que anima os homens, e aquele alcançaria seu sentido somente em comunhão com a alma que o anima.

Embora houvesse uma discussão epistêmica que priorizasse a alma (intelecto) em detrimento do corpo, este era ao mesmo tempo idealizado pelos gregos. Esta
dialética foi uma das bases da educação grega. O primeiro período da educação se dava através da ginástica, música, dança, treinando o corpo em função de seu
aprimoramento e sua valoração se daria pela sua saúde, capacidade atlética, beleza e fertilidade.

Ao conceito de cidadão relacionava-se uma imagem idealizada do corpo, elemento de glorificação e de interesse do Estado. O segundo período da educação grega era reservado apenas para aqueles considerados com uma personalidade racional desenvolvida (os homens): era o momento em que se estudava os conhecimentos filosóficos e dialéticos.

Contrariamente a uma natureza, qualquer que ela fosse, o corpo seria sempre um artifício que poderia ser apreciado pelos seus atributos (beleza, força, resistência etc.) e admirado como uma forma exemplar e ideal de um cidadão grego, porém, jamais seria visto como uma possível forma de conhecimento racional (Vernant 1974).

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