Entrevista com Fernando Schüler, professor do Insper e doutor em Filosofia.

Professor do Insper e doutor em Filosofia pela UFRGS, Fernando Schüler apresenta a sua visão liberal e democrática de mundo e fala sobre a experiência no projeto Fronteiras do Pensamento

Por Daniel Rodrigues Aurélio / Adaptação Web Rachel de Brito

fernando-schüler-pensador-contemporâneo-liberalismo-insp

Com o objetivo de pensar o mundo contemporâneo a partir de diferentes olhares, o ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento é organizado desde 2006 e já trouxe para o Brasil nomes como Beatriz Sarlo, Zygmunt Bauman, Carlo Ginzburg, Christopher Hitchens, Edgar Morin, Elizabeth Roudinesco, Francis Fukuyama, Gilles Lipovetsky, Thomas Piketty, Richard Dawkins, Pierre Lévy, Perry Anderson, Mario Vargas Llosa, Richard Sennett e Michael Onfray. Curador do Fronteiras, o filósofo e cientista político Fernando Schüler é o nosso entrevistado para a revista Filosofia.

Nascido no ano de 1965 em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Fernando Luis Schüler é um sujeito alto e de fala suave, porém decidida. Liberal convicto, Schüler possui um currículo vistoso. Mestre em Ciências Políticas e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pós-doutorado pela Universidade de Columbia (EUA), é professor do Insper e titular da Cátedra Palavra Aberta, articulista de relevantes veículos de mídia (Folha de S. Paulo, Época, Estado de S. Paulo), consultor de empresas e mantém um site pessoal na internet.

Entre 2007 e 2010 ocupou o posto de secretário de Estado da Justiça e do Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul, durante a gestão de Yeda Crusius (PSDB). Também escreve artigos para o think tank liberal Instituto Millenium.

Filosofia • O senhor é titular da Cátedra Palavra Aberta, no Insper. Conte-nos um pouco sobre a cátedra e essa experiência.

Fernando Schüler • O Insper é uma instituição acadêmica de excelência, focada na pesquisa e no debate de ideias. Além das minhas aulas e pesquisas na área de Filosofia política, sou titular da Cátedra Insper Palavra Aberta, voltada ao tema da liberdade de expressão e de imprensa. É interessante como este tema voltou a ser importante em nosso debate público. Vivemos em uma época de excesso de informação e de retórica. Todos podem saber sobre tudo e sobre todos, e parecemos falar o tempo inteiro. Nos anos 1980, pensávamos que o grande desafio das democracias era promover a transparência e dar voz às pessoas. Hoje dispomos de uma transparência quase obscena, na esfera pública, e não sabemos bem o que fazer com isso. A “ágora digital” não melhorou a qualidade da democracia, deu poder a minorias barulhentas e fez crescer a instabilidade da democracia. Tudo isso veio para ficar, de modo que é bom entender o que está se passando.

FILOSOFIA • Como é atuar como curador do Fronteiras do Pensamento? Qual dos convidados o impressionou mais?

Fernando Schüler • O Fronteiras é uma aposta na reflexão aberta e plural sobre o mundo contemporâneo. Na mesma temporada, temos Thomas Piketty e Niall Ferguson, com visões muito distintas, debatendo nossos dilemas. Muita gente me impressionou, nesses anos todos. Ainda me lembro da noite memorável com Christopher Hitchens fumando muito e engajado em um debate sobre o apelo a Deus e à história na modernidade; lembro das histórias de Vargas Llosa sobre tentativa frustrada de ser presidente do Peru, no início dos anos 1990; ou dos debates com Amartya Sen, Michael Sandel, Simon Schama e tantos outros. Um tipo que me impressionou, pela ironia e pelo humor ferino, foi Alain de Botton. Além de escritor refinado, ele soube criar um movimento: a School of Life, com a visão de trazer a Filosofia e a reflexão para o cotidiano das pessoas. O Fronteiras do Pensamento é, antes de qualquer coisa, uma tentativa de celebrar o prazer da atividade intelectual. O gosto pelas ideias elegantes e pelo choque de ideias. Tive imenso prazer, nesses anos todos, com o projeto.

FILOSOFIA • Sua tese de doutorado foi sobre o princípio da diferença. Conte-nos um pouco sobre o processo de produção e quais autores foram utilizados como referência teórica.

Fernando Schüler • Minha tese contém um elogio e uma crítica à teoria da justiça de Rawls. Sempre me fascinou esta sua ideia de formular uma concepção sobre a justiça política que pudesse servir como ponto de encontro entre as múltiplas visões que habitam nossa tradição democrática. Rawls recua até a reforma protestante para tentar entender a fratura ética que marca a cultura moderna. Sua primeira conclusão é bastante elementar: não havendo chances de reconciliação no plano das visões substantivas sobre a vida humana, nossa única chance de produzir um acordo para viver em paz e em liberdade é no universo da política. Daí sua ideia de um “liberalismo político, não metafísico”. Quanto ao princípio da diferença, penso que ele expressa uma ideia inteligente e pouco compreendida em nosso debate filosófico: a noção de que é melhor viver numa sociedade economicamente desigual, com vantagens para todos, do que em uma sociedade mais igualitária que reduza ainda mais as expectativas dos que têm menos. A tese é ótima, mas meu ponto foi argumentar que os agentes morais, na posição original, de fato não fariam a escolha do princípio da diferença. Eles optariam por colocar em seu lugar o que chamei de concepção da igualdade quanto
ao básico, ou igualdade basal. É uma formulação feita com a vantagem do tempo. Escrevo meio século depois de Rawls, após o processo de integração econômica e da abrupta redução da pobreza global que assistimos nas últimas décadas. Vivemos em uma sociedade muito mais aberta ao risco e mais desconfiada em relação à racionalidade distributiva comandada pelo Estado. Rawls ainda acreditava, nos anos 1970, em coisas como a “democracia de proprietários”, de James Meade. Tudo isso se mostrou fantasioso com o passar do tempo. Vivemos uma era de revolução tecnológica, com informação ubíqua e um universo crescente de oportunidades. Acredito que mesmo Rawls faria uma releitura de suas visões econômicas, se ainda estivesse por aqui. Ele nunca foi um ortodoxo, preso a velhas ideias, como me parecem muitos de seus estudiosos contemporâneos. Suas ideias são abertas à mudança, e tento trabalhar nessa direção.

FILOSOFIA • Dentro da tradição intelectual e política brasileira, o senhor é considerado um liberal. Na sua opinião, quais são as características que definem um pensador liberal em oposição aos de outras orientações político-ideológicas?

Fernando Schüler • Um liberal, da forma como entendo esse conceito, é essencialmente alguém que preza a liberdade em suas diferentes dimensões. Isso envolve as esferas intelectual, política e também econômica. Seres humanos expressam sua natureza e realizam seu potencial em muitas dimensões. No plano das ideias, da cultura, no mundo do trabalho, no mercado etc. Por que deveríamos atribuir mais ou menos valor a essa ou àquela dimensão? Quem deveria escolher que dimensão da liberdade individual é mais essencial à realização humana? De minha parte, recuso essa pretensão. Devemos ser livres para fazer nossas escolhas no mundo político, na esfera comportamental e também no mercado. Há muitas questões envolvidas nesse debate. Boa parte do que se chama pelo nome de “liberalismo”, no debate atual, é não mais do que um apelo à racionalidade econômica. Temas como responsabilidade fiscal e reforma da previdência, por exemplo, dizem respeito à eficiência do Estado e deveriam ser de interesse de quem aposta na sustentabilidade de políticas sociais e de desenvolvimento. Nada têm a ver, por si só, com uma agenda liberal. Mas tudo parece se confundir no debate político cotidiano. Após os anos 1990, houve uma confluência de ideias entre o liberalismo e a social-democracia. A globalização levou a uma demanda pela reforma do Estado. Quem se antecipou nesse processo levou vantagem.
A síntese é um modelo que deseja um mercado com boa regulação, com regras iguais para todos e capaz de oferecer políticas sociais inteligentes. Não há divergência, essencialmente, entre liberais e sociais-democratas em relação a essa agenda. Talvez seja por isso que, no Brasil pós-Plano Real, foi a social-democracia que liderou as nossas mais importantes reformas liberalizantes (que foram poucas, diga-se de passagem). Penso que a esquerda brasileira nunca soube separar e distinguir adequadamente o interesse difuso dos mais pobres daquilo que são, tão somente, demandas corporativas do setor público. Vai daí a confusão, tipicamente brasileira, entre o público e o estatal.

Para ler esta entrevista na íntegra, adquira já a edição 139 da revista filosofia

PORTAL ESPAÇO DO SABER FILOSOFIA

<