Entrevista com Ernani Chaves, professor do departamento de Filosofia da UFPA.

Professor do Departamento de Filosofi a da UFPA, Ernani Chaves fala sobre sua trajetória e seus estudos a respeito de Foucault, Nietzsche, Benjamin e Freud

Por Daniel Rodrigues Aurélio / Adaptação Web Rachel de Brito

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Estudioso das obras de Michel Foucault, Walter Benjamin, Sigmund Freud, Theodor Adorno e Friedrich Nietzsche, com pesquisas realizadas nas principais instituições de ensino da Alemanha e da França – são nada menos do que quatro pós-doutorados no exterior –, Ernani Pinheiro Chaves é professor titular da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Embora seja um dos filósofos mais atuantes do Brasil, sua formação inicial não é nessa área. Chaves graduou-se em Administração pela UFPA em 1978. Três anos depois, ingressou no programa de mestrado em Filosofia, na PUC-SP, e em 1993 defendeu seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP), sobre a recepção de Nietzsche na obra de Benjamin, sob orientação de Franklin Leopoldo e Silva.

Ernani Chaves atendeu a revista Filosofia para a entrevista que segue.

FILOSOFIA • Professor, como se deu a sua “conversão” da Administração para a Filosofia? E como elas podem dialogar?
ERNANI CHAVES • “Conversão” é uma bela ideia! Eu era muito jovem, tinha apenas 17 anos quando fiz o vestibular. Não tinha a menor ideia do que era um curso de Filosofia, cujo primeiro vestibular, logo depois da autorização de funcionamento do curso na UFPA, aconteceu nesse mesmo ano.

Escolhi Administração para tentar fugir ao meu destino de ser professor na área de Humanas. No ginásio, fui apaixonado por História, que eu estudei pelo método mais tradicional possível, decorando datas, anos, reis, rainhas, presidentes e governadores, causas e consequências, a famosa “história dos vencedores”.

Quando visitei Atenas pela primeira vez e estava diante da Acrópole, só me vinha à cabeça a imagem do templo, que era a capa do livro de História geral, do Armando Souto Maior. No ensino médio, a paixão pela literatura foi reforçada pelas excelentes professoras que tive, pois eu já havia lido muitos clássicos da literatura brasileira e universal, que pegava na biblioteca pública de minha cidade, em Soure, na Ilha do Marajó, aqui no Pará.

Agora, eu aprendia a interpretar os textos, a conhecer as características dos gêneros e das escolas literárias. A paixão por “Capitu”, pelo naturalismo, por Fernando Pessoa, Drummond e, principalmente, Manuel Bandeira, minha paixão como poeta na adolescência me colocava perigosamente próximo daquilo que eu não queria ser, que eu recusava. Freud explica! (risos)…

Nasci praticamente numa escola, pois minha mãe era professora e, além de dar aulas no grupo escolar, tinha uma escola que funcionava na sala de nossa casa. Ela me ensinou a ler aos 4 anos, não pela Cartilha do ABC, mas por meio das manchetes dos jornais de Belém, que chegavam regularmente em Soure.

Desde criança, ajudava minha mãe na escola; aos 14 anos, já em Belém para cursar o secundário, dava aulas na escola de uma amiga da família. Pois é, aí, nas proximidades do vestibular, quis fugir ao meu destino e, por isso, escolhi um curso acreditando que ele poderia me dar um bom emprego e não ser professor. Mas com o destino não se brinca, né?

Fiz a disciplina História da Filosofia como optativa e tive um professor muito simpático, inteligente e que tinha uma relação próxima e cordial com os poucos alunos que éramos. Fui um bom aluno, me entusiasmei algumas vezes estudando o Racionalismo e o Empirismo dos séculos XVII e XVIII. Isso foi no segundo semestre de 1975.

No começo de 1976, encontrei esse professor, inteiramente por acaso, no então Centro de Filosofia e Ciências Humanas e ele me disse que haveria um processo seletivo para monitor da disciplina Introdução à Filosofia e que ele achava que eu deveria me inscrever, pois “você leva jeito pra coisa”, me disse. Resolvi aceitar a sugestão, me inscrevi e fui aprovado em primeiro lugar.

Na banca da seleção, estava o prof. Benedito Nunes. Acho que aí se deu a conversão. Meu encontro com o prof. Benedito, as tardes de estudo no escritório da casa dele foram decisivos. Nesses encontros eu descobri de fato a Filosofia, que se tornou uma inevitável paixão.

Terminei o curso de Administração, que não foi, de todo, em vão. As disciplinas Ética da Administração e Economia Brasileira me deixaram ótimas lembranças.

Na primeira, eu podia mobilizar minhas leituras no campo da Filosofia. Na segunda, conheci as grandes interpretações do Brasil, li o livro do Caio Prado Jr. sobre a formação econômica brasileira e os autores da teoria da dependência. Por meio do livro do Caio Prado, principalmente, tive uma primeira iniciação no marxismo.

No começo de 1979, comecei a dar aula de Ética no curso de Administração de uma faculdade particular de Belém. O coordenador do curso nessa faculdade me perguntou, em agosto de 1980, se eu não gostaria de fazer mestrado, porque a faculdade havia recebido algumas bolsas da Capes. Respondi que só iria se me fosse permitido fazer um mestrado em Filosofia, com o que a instituição concordou.

O prof. Benedito me sugeriu estudar Foucault, a cujas conferências eu assistira, em Belém, sem entender quase nada, em novembro de 1976. Fui aprovado para o mestrado da PUC de São Paulo, que comecei em março de 1981. O resto vocês já sabem, porque está quase tudo no Lattes.

FILOSOFIA • Seu percurso acadêmico teve a participação dos professores Franklin Leopoldo e Silva e Jeanne Marie Gagnebin. Como foi trabalhar com essas grandes figuras do pensamento brasileiro?
ERNANI CHAVES • Não posso deixar de dizer que tive muita sorte, no que diz respeito aos orientadores e orientadoras que tive em minha vida acadêmica. Primeiro Benedito Nunes, depois Jeann Marie Gagnebin e Franklin Leopoldo e Silva.

Entre eles, há um traço em comum, que é o fato de serem avessos a qualquer dogmatismo, assim como foram/são destituídos do desejo de “fazer escola”. Além disso, transitam com rigor e sensibilidade entre Filosofia e arte, em especial entre Filosofia e literatura. O que se reflete na escrita e, por conseguinte, no prazer em lê-los.

De Franklin, em especial, guardo a generosidade e o acolhimento, quando cheguei na USP em março de 1988. Como durante o meu doutorado passei uma temporada em Berlim (era o início das chamadas bolsas “sandwich”), Franklin sempre cuidou da parte burocrática de minha liberação com muito zelo, o que é uma coisa importante, porque o convênio Capes/Daad até hoje possui prazos muito rigorosos.

Minhas conversas com Franklin em sua sala no Departamento de Filosofia sempre tiveram muitos bons resultados. Jeanne Maria Gagnebin é uma relação e uma história mais antigas. Nos conhecemos durante o processo seletivo para o mestrado, na PUC-SP, em março de 1981. Tornei-me, em seguida, seu primeiro orientando, desde que ela chegara ao Brasil.

Com Jeanne Marie aprendi muitas coisas, não só sobre pesquisa e trabalho acadêmico, mas também dela recebi e recebo apoio, conselhos. Nos tornamos grandes amigos e nos falamos com frequência. Eu digo que o imperativo categórico de Jeanne Marie é: “Amai as palavras acima de todas as coisas”. Com ela, aprendi um modo interessante de fazer filologia, desenvolvi e fortaleci meu prazer pelo estudo e aprendizado das línguas estrangeiras, em especial do alemão. Nossa relação acadêmica é uma relação de permanente troca, conversamos sobre o que estamos fazendo e discutimos ideias e hipóteses de trabalho.

Nos encontramos em diversos lugares e países: em São Paulo e Campinas, principalmente, mas também em Belém, Berlim e Paris. Temos uma memória comum, de viagens e encontros, de visitas a lugares emblemáticos da nossa memória. Com ela, por exemplo, visitei em 1998 a “Casa do Wannsee”, em Berlim, à beira do lago onde Hitler assinou a “Solução Final”.

Foi ela quem me mostrou, em Paris, em 2013, o Hospital Geral, cuja história e análise ocupam lugar central na História da loucura, de Foucault. Com Jeanne Marie descobri, principalmente, nosso amor comum, o pensamento de Walter Benjamin.

Em março deste ano nos reencontramos numa Paris gelada e esses (re)encontros são sempre mediados por um afeto que não cabe em palavras. Mas madame Gagnebin, como todos sabem, é muito rigorosa e nunca me poupou de sugestões críticas, quando necessário. Sempre que escrevo algo, em especial sobre Benjamin, ela é a minha interlocutora imaginária.

FILOSOFIA • O senhor é um reconhecido pesquisador da obra de Nietzsche e Benjamin. Quais são os pontos de convergência e divergência entre ambos?

ERNANI CHAVES • Benjamin pertence a uma geração que foi impactada pelo pensamento de Nietzsche, que se tornara um autor muito conhecido na Alemanha, na virada do século XIX para o XX, de tal modo que se constitui por lá, e depois por outros países, um verdadeiro “culto a Nietzsche”.

Desde seu primeiro texto publicado que conhecemos, de 1912, até o último, as famosas “teses sobre o conceito de história”, Benjamin cita Nietzsche inúmeras vezes, refere-se a conceitos e expressões nietzschianas, cita importantes comentadores e intérpretes do autor de Zaratustra.

Quando, há exatos 30 anos, resolvi escrever uma tese sobre a recepção de Nietzsche no pensamento de Benjamin, em geral, isso soava aos ouvidos daqueles que tinham a imagem marxista de Benjamin como um escândalo, um verdadeiro sacrilégio. Era uma época em que o diagnóstico crítico da pós-Modernidade feito por Habermas era aceito quase que de forma acrítica. Assim, misturar Benjamin com Nietzsche e um pouco com Foucault significava misturá-lo a esse bando de irracionalistas.

É bem verdade que a história da recepção de Benjamin no Brasil ajudava a criar e intensificar essa desconfiança. Benjamin, durante quase duas décadas, foi, no Brasil, o autor de um único texto, aquele sobre a reprodutibilidade técnica das obras de arte. Em que pesem as duras críticas de Adorno, pouco se questionavam os elementos marxistas do pensamento de Benjamin.

Minha tese, entretanto, tem uma sólida ancoragem, qual seja, os próprios textos de Benjamin. Nela, como anexo, se encontram quase todas as referências de Benjamin a Nietzsche, espalhadas nos 15 volumes de seus Escritos reunidos, publicados na Alemanha pela Editora Suhrkamp.

O tema da minha tese, entretanto, foi o das relações entre mito e história, pois me parece que em torno desse tema é que gira o interesse de Benjamin por Nietzsche. Por um lado, Benjamin apreciou bastante o escrito de juventude de Nietzsche, a Segunda consideração extemporânea, acerca das “utilidades e desvantagens da história para a vida”.

A crítica de Benjamin ao historicismo, várias de suas considerações acerca das relações entre memória e esquecimento, sua crítica às formas de popularização e vulgarização do pensamento de Marx no interior dos partidos comunistas são incompreensíveis sem sua interlocução com esse texto do jovem Nietzsche.

Mas, por outro lado, Benjamin também faz severas críticas a outras posições de Nietzsche: critica o “nascimento da tragédia”, porque nele Nietzsche teria sucumbido ao mito em detrimento de uma análise histórica da tragédia; a doutrina do eterno retorno, lida especialmente pela mediação do livro de Karl Löwith sobre esse mesmo tema, publicado em 1935, é denunciada também como mito e associada, a partir de uma referência de Freud em Além do princípio de prazer, à neurose e à compulsão de repetição; Zaratustra se situa também entre o naufrágio no mito e a apresentação de uma crítica contundente da Modernidade, tal como o segundo Exposé à Obra das passagens o mostra claramente.

Procurei mostrar o que havia de interessante e frutífero nesse embate, para podermos pensar algumas questões muito importantes de nossa época. Infelizmente, a tese ficou grande demais, dois volumes, quase 500 páginas e não tive paciência, tempo e coragem para retrabalhá-la e publicá-la na forma de livro.

Entretanto, tudo o que publiquei nos anos subsequentes sobre Nietzsche e Benjamin foi extraído dela. Reuni esses artigos em um livro, em 2003, intitulado No limiar do moderno: estudos sobre Nietzsche e Benjamin, publicado por uma editora de Belém do Pará, a Paka-Tatu.

Alimento o desejo e a esperança de poder publicar, na forma de livro, o terceiro capítulo da tese, justamente sobre a questão da Modernidade e do eterno retorno.

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição 140 da revista FILOSOFIA.

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