Cosmorfologia: A compreensão das estruturas do universo

Em reflexão sobre a origem e evolução das espécies, Rodrigo Petronio traça as estruturas do universo.

Por Rodrigo Petronio / Adaptação Web Rachel de Brito

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Um dos problemas mais difíceis da Filosofia e das ciências em geral é a determinação das relações e dos limites entre filogênese (evolução), morfogênese (desenvolvimento da forma) e ontogênese (período de desenvolvimento de um indivíduo). Em outras palavras: a determinação da origem das espécies, das formas e do ser. Bem como o entendimento de suas implicações recíprocas.

A série de estudantes em busca das leis materiais e formais que regem as distinções e as continuidades entre indivíduos, espécies e gêneros; o debate em torno da individuação e da singularização das substâncias, que atravessa a história do pensamento, ou seja, os fundamentos mesmos da metafísica que ainda persistem como problemas insolúveis nas teorias contemporâneas;  tudo isso diz respeito a um problema de morfologia, ou seja, origem das palavras. Refere-se à formulação de um modelo descritivo adequado das formas emergentes e coevolutivas que se desdobram na fronteira e no intervalo entre ser, forma e evento.

O melhor exemplo para ilustrar essa dificuldade continua sendo o exemplo mais simples: a borboleta. Qual a distinção precisa entre o ser da lagarta, o ser da crisálida e o ser da borboleta? Em que medida essas três formas singulares podem ser consideradas uma descontinuidade ontológica entre três seres? A forma determina a totalidade [holos] individual do ser? Então, nesse caso, teríamos três espécies (lagarta, crisálida, borboleta) em metamorfose, umas engendrando as outras e sendo engendradas pelas outras? Ou estaríamos apenas diante de uma transformação epifenomênica interna a uma mesma espécie e a um mesmo ser?

Se a forma é o modo pelo qual as substâncias se singularizam, esse exemplo indicaria que todos os indivíduos provêm de uma forma substancial comum? As perguntas se multiplicam ao infinito. O estudo de todas essas gêneses e transformações não se restringe à biologia, pois os processos formais não são exclusivos dos organismos.

A manifestação da forma engloba também os seres inorgânicos e os processos fisioquímicos de cristais, líquidos, estrelas, minerais, átomos, moléculas, quantas e energia escura. O campo de estudos que recobre essas diversas metamorfoses globais do ser pode ser chamado de morfologia. Proponho aqui uma expansão desse campo. A morfologia não diria respeito apenas a eventos e seres do mundo sublunar. Poderia ser a chave de compreensão de estruturas do universo: uma cosmorfologia.

Nos séculos XVII e XVIII, Vico e Hocke talvez tenham sido os primeiros morfologistas a confrontar essas três gêneses, identificando-as com os três planos principais da macronarrativa do universo: a criação do mundo, a história natural e as formas atuais da vida na Terra. Em outras palavras,  foram os primeiros a colocar em aporia as relações estabilizadas entre universo, Deus e Terra, ou seja, entre cosmologia, teologia e geologia.

Leibniz, especialmente em sua Protogeia, levou esse problema da comensurabilidade entre as múltiplas gêneses a um patamar de elaboração propriamente moderna. E é a partir dele que essa questão assume a centralidade de todas as ciências humanas e naturais, desdobrando-se na filosofia natural alemã de Haeckel, em Goethe e em Wundt e na revolução de Wallance e Darwin. Todos rigorosamente morfologistas.

Qual o postulado da morfologia de Leibniz? Uma lei da continuidade (“lex continui”) rege todo o universo. A pluralidade dos átomos metafísicos que são as mônadas configura em suas relações graus de complexidade de todos os seres. Não haveria saltos ou descontinuidades na natureza. A pluralidade dos mundos-mônadas emergem da criatividade divina.

Esse continuum da criação divina é não apenas eterno, uno e infinito, mas também capaz de gerar novas formas, novas espécies e novos seres no interior da cadeia imanente do ser. A monadologia de Leibniz nesse sentido é simultaneamente uma cosmologia e uma morfologia. Uma teoria geral das formas baseada na unidade orgânica é uma exigência de continuidade entre as diversas gêneses e passagens da espécie às formas e das formas ao ser.

A descontinuidade radical do racionalismo de Leibniz se encontra na distinção entre geração e criação, entre ato divino e ato natural. Para Leibniz, apenas a ação infinita e criativa divina é capaz de gerar novos seres, novas formas e novas composições no universo. A natureza é uma grande cadeia do ser, como intuiu Arthur Lovejoy. Contudo, seria incapaz de se renovar a si mesma sem um imperativo divino da criação contínua.

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