Conecto, logo existo

Por Albio Fabian Melchioretto* | Foto: Shutterstock

 

Será que existe um espaço onde as pessoas possam criar laços, trocar informações, compartilhar opiniões sobre a realidade, discutir e reunir-se como amigos? Talvez pudéssemos apontar as redes sociais virtuais como “lugar” para criar tais possibilidades. Um espaço para a pluralidade de vozes. Mas será que de fato a constituição de redes sociais nos espaços virtuais seja tão simples assim? A internet vive em plena expansão, e as redes também. O que era uma conexão limitada em terminais fixos, agora se possibilita por meio de múltiplas ferramentas para conexão. Com tantas possibilidades, vivemos numa sociedade telepática.

 

Vivemos num mundo conectado e midializado. A constatação por si própria não é suficiente para entender as possibilidades que se desvelam no virtual, precisamos de mecanismos que permitam um olhar mais apurado para tantas redes que nos entrelaçam. Nosso tempo constrói um espaço muitas vezes mais técnico e menos natural, onde a deusa máquina reina. A presença cada vez maior de um conjunto de máquinas em nossas vidas pode, em certo grau, reduzir a humanidade a usuários maquínicos. Usuários que transformam as interações cotidianas em conexões apenas virtuais. Para perceber tal mudança não é preciso um grande esforço, basta olhar as ruas e notar o número cada vez maior de indivíduos que caminham com o olhar fixo em telas de vidro carregadas na mão. Estas linhas não querem condenar ou apoiar, apenas refletir as múltiplas possibilidades através do conceito de rizoma proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Antes de falar do rizoma em si, quero entrelaçar esta ideia com Pierre Lévy.

 

A ideia de conexão relaciona-se diretamente a interatividade. Pierre Lévy descreve que a interatividade pode ser medida em cinco eixos diferentes: as possibilidades de personalização, a reciprocidade de comunicação, a virtualidade, a implicação da imagem dos participantes e a telepresença. Olhando os aspectos destacados por Lévy podemos classificar as ferramentas que permitem a criação de redes sociais virtuais como ferramentas de interatividade. Mas em qual lógica a interatividade acontece? Ela acontece numa lógica rizomática.

 

Segundo Deleuze e Guattari, a lógica que nos permite entender as conexões não pode ser uma lógica arbórea e enrijecida, é preciso pensar de modo diferente. Para pensar estas questões, pode-se então usar o sistema que eles chamam de rizoma. Para descrever o rizoma, Deleuze e Guattari usam seis princípios aproximativos. Vou expô-los didaticamente em poucas linhas. O primeiro princípio de conexão explica que no rizoma qualquer ponto pode ser conectado a outro, e assim deve sê-lo. Muito diferente de uma árvore, em que os pontos procedem-se por dicotomias. O segundo princípio é o da heterogeneidade que parte do pressuposto que o rizoma não se fecha em si mesmo. O terceiro princípio é o da multiplicidade, pois as relações não se estabelecem apenas no sujeito, já que a unidade denuncia as pseudomultiplicidades arborescentes. O rizoma é marcado por uma multiplicidade de linhas que vão e vêm por todas as direções. O quarto princípio descrito é o da ruptura a-significante. Nele é descrito que o rizoma pode ser rompido, quebrado em qualquer lugar. Segundo os autores, faz-se uma ruptura, traça-se uma linha de fuga, mas sempre se corre o risco de reencontrar nela organizações que reestratificam os conjuntos. O quinto princípio é o da cartografia; e o sexto, da decalcomania. O rizoma é mapa não decalque. O mapa é aberto e conectável em todas as suas direções. Conexão pura.

 

Do rizoma às redes sociais virtuais. Para defini-las é preciso conceituá-las. Para isso, vou usar Raquel Recuero. “Uma rede social na internet modifica-se em relação ao tempo”, fato que permite traçar um paralelo ao rizoma. As redes sociais na internet são elementos de constante mutação do tempo. São sistemas dinâmicos sujeitos a processos de ordens e caos, de agregação e desagregação e rupturas. São sistemas de quebras e de reconstruções perenes que operam numa lógica não arbórea. Nesse ir e vir de construções e destruições, não se classificam numa única categoria de comportamento, sendo assim, não constituem princípios rígidos de ação. Mas em construções que envolvem cooperação, competição e conflito. Indivíduos que formam múltiplas possibilidades de conexões gerando ações diversas que se moldam de acordo com as oportunidades que são dadas pelo instante-momento.

 

Mas por que pensar este tema? Se a resposta for “todos estão conectados”, ela pode não ser suficiente. É preciso pensar o que faz a conexão e o que fazemos com aquilo que a conexão faz de nós. Se a um número infinito de macacos fossem dadas máquinas de escrever num tempo infinito, probabilisticamente, um deles escreveria uma tragédia de Shakespeare. Se agora, a um número infinito de usuários é dada uma conexão, que possibilidades probabilisticamente serão construídas?

 

“Aqueles que querem somente uma vida simples podem escolher se desplugar e viver fora do circuito. Mas particularmente para este começo de século XXI, objeto nodular, desconectar pode significar amputar. Eu sou parte das redes, e as redes são parte de mim. Eu apareço nos diretórios. Eu sou visível no Google. Eu conecto, logo existo”.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 109

Adaptado do texto “Conecto, logo existo”

*Albio Fabian Melchioretto é mestrando em Educação pela Universidade Regional de Blumenau FURB; especialista em Mídias e Educação pela Universidade do Rio Grande (FURG) e Filosofia pela FURB. Atua como Facilitador de Tecnologias Educacionais no Senai/SC. albio.melchioretto@gmail.com

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