Bataille: da experiência interior

Veja a crítica do livro "A experiência do interior", de Georges Bataille

Por Ana Maria Haddad Batista | Foto Divulgação | Adaptação web Isis Fonseca

Bataille

O que realmente pode se entender por subjetividade? Quais seriam seus limites? Haveria uma profundidade subjetiva, tal como nos sugerem Bergson, Kant e tantos outros filósofos? Em que medida conseguimos, via Deleuze, alcançarmos as profundezas de nossa temporalidade, visto que subjetividade, sob certa perspectiva, não passa de temporalidade interior? Em outras palavras: temporalização humana.

Esta e outras questões são colocadas à tona iluminadas por uma espécie de constelação dos conceitos formulados por Georges Bataille na obra A experiência interior, tradução de Fernando Scheibe, editora Autêntica. Bataille em vida foi um escritor pouco conhecido. Quase marginalizado.

Seu conjunto de obras, muito variado, felizmente, foge às categorias das grandes e canônicas classificações. E, sabe-se, quando uma obra não se subordina ao lugar comum, a tendência quase que imediata é ficar de lado. Porque desconcerta. Desafia. Instiga. Põe em risco a servidão-escravidão (sempre útil). Verdade seja dita.

Nessa medida, a obra em questão nos coloca em xeque. “A experiência interior responde à necessidade em que estou – e a existência humana comigo – de pôr tudo em causa (em questão) sem repouso admissível.

Essa necessidade já atuava apesar das crenças religiosas, mas tem consequências muito mais radicais na ausência dessas crenças. As pressuposições dogmáticas deram limites indevidos à experiência: aquele que já sabe não poder ir além de um horizonte conhecido.”

O fragmento em referência denuncia um dos polos do livro. A moral, o comportamento e outros conceitos colocados à prova da possível submissão ou transgressão. Neste sentido, a leitura do livro conduz, a nós leitores, questionarmos, a fundo, nossos próprios valores. E nos conduz ao confronto. Tarefa dolorosa. Exercício no qual somente a boa literatura poderá fornecer, como , por exemplo, no seguinte fragmento: “A experiência interior, por não poder ter princípio nem um dogma (atitude moral), nem na ciência (o saber não pode ser nem seu fim nem sua origem), nem na busca de estados enriquecedores (atitude estética, experimental), também não pode ter outro anseio nem outro fim que ela não própria. Abrindo-me à experiência interior, postulei seu valor, sua autoridade. Não posso de agora em diante ter outro valor nem outra autoridade. Valor, autoridade implicam o rigor de um método, a existência de uma comunidade”.

Diante do exposto, minimamente, conseguimos vislumbrar os principais elementos que circunscrevem a tão sonhada liberdade. As indagações mais reveladoras, a nós mesmos, se traduzem, por exemplo, em como escapar da autoridade.

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