A universidade faz mal à Filosofia?

Por Renato Janine Ribeiro / Adaptação Web Rachel de Brito

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Minha principal razão de amar a filosofia é que ela faz perguntas importunas.

Estamos acostumamos a um elogio: é quando se diz que um livro é “oportuno”, significando que ele vem a calhar para o momento em que estamos. Porém, é raro elogiá-lo por importunar – por contestar não só opiniões feitas, mas a própria agenda de discussão já pronta.

Aqui está uma tarefa importante da filosofia. Porque o principal, aprendemos com a filosofia, não é responder bem às perguntas: é saber formulá-las e, mesmo, reformulá-las.

Porque muita pergunta já contém em si a resposta que será dada. O exemplo clássico, quando os Estados Unidos se recusavam a reconhecer a República Popular da China, era a pergunta: “Você apoia que seu governo reconheça a China Vermelha?” (um “não” estrondoso). “A China Comunista?” (idem). “A China Popular?” (maioria de sim). “A China Continental?” (quase unanimidade de sim).

É consenso hoje que a filosofia se aprende no ensino superior, na universidade, portanto. Mas nossa pergunta importuna é: será que isso é bom para o pensamento filosófico?

Lembremos que, diferentemente das ciências, a filosofia comporta uma multidão de filosofias irredutíveis umas às outras, que não são passíveis de refutação pela experimentação. Temos nietzschianos, hegelianos e até platônicos debatendo suas ideias. Nisso, somos mais próximos da literatura, na qual o Quixote nunca superou ou refutou a Ilíada.

Será que os procedimentos universitários são bons para uma disciplina na qual “livre-pensar é só pensar”?

Vejam um rápido percurso pela história da filosofia.

Sócrates é nosso pensador quase inaugural, tanto que chamamos seus precursores de “pré-socráticos”. O que ele tem de distintivo? Os diálogos. Neles, qualquer um é chamado a fazer filosofia. Até o escravo pode filosofar. Tudo isso, aliás, graças a perguntas e respostas que nunca exigem conhecimentos teóricos anteriores.

Não havia nem haveria por muito tempo formação profissional em filosofia, ou cursos universitários na mesma área. Na verdade, para ir direto a meu argumento, a filosofia fica difícil de se compreender quando ela entra na universidade. Isso ocorre nos séculos finais da Idade Média (e vários pensadores modernos, entre eles Hobbes, zombarão do jargão que a escolástica adotou) e, de novo, a partir do século XVIII.

No Século das Luzes, se confrontam os “Philosophes” Rousseau, Hume, com um discurso voltado para os leigos, e os professores universitários de filosofia, sendo Kant o mais destacado dentre eles. No século XIX, a universidade ganha a parada, e assim continua sendo coisas.

Nos cem anos passados, somente um dentre os grandes filósofos esteve fora da universidade – Sartre; e ele explicou, em carta a Merleau-Ponty, que devia isso a ter conseguido, desde relativamente cedo, viver dos direitos de suas obras, em especial as teatrais e de ficção.

Será estranho, então, que a filosofia tenha construído um discurso cada vez mais técnico, mais especializado, mais fechado em si mesmo? Mas será que isso lhe faz bem – ou não?

Será, por acaso, que um dos filósofos do século XX que mais tratou da ética, da vida comum, do dia a dia, tenha sido justamente esse forasteiro da academia?

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