A felicidade em Aristóteles

Por Leonardo Araújo Oliveira / Adaptação Web Rachel de Brito

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Quais as singularidades da ideia de ética trazida por Aristóteles em relação a outros pensadores que falaram sobre o mesmo tema?

Aristóteles discute sobre a felicidade em torno de conceitos como os de finalidade e bem. O autor fala sobre o conceito de virtude, explorando a virtude ética (ou moral), que se diferencia da virtude dianoética (ou intelectual).

Assim, para evidenciar a singularidade da ética aristotélica, é importante conhecer alguns modelos éticos incompatíveis ao de Aristóteles. Serão eles: o modelo intelectualista, em que o conhecimento do bem implica em sua realização e o erro moral advém apenas da ignorância; o modelo religioso, em que mandamentos universais dizem aos agentes morais o que eles devem ou não devem fazer; o modelo kantiano, em que princípios formais determinam a ação moral independentemente do contexto e das particularidades.

Também é interessante entender conceitos do filósofo de finalidade, bem, felicidade e autossuficiência, que estão completamente imbricados no contexto ético.

Em um terceiro momento, a fim de aprofundar o conceito de felicidade, falaremos da ideia de “função própria ao homem”, demarcando o caráter antropológico da proposta de Aristóteles. Nesse contexto, apresentaremos a teoria da partição da alma, tal como apresentada na Ética a Nicômaco, dando ênfase à razão calculativa e ao desejo. Incluem-se nessa discussão os quatro tipos de vida candidatos à vida feliz (vida dos prazeres, das honrarias, da virtude e da contemplação),em que se fazem necessários o conceito de função e o resgate da noção de autossuficiência.

Modelos éticos

Com o objetivo de expor a singularidade da ética aristotélica, iniciaremos com a demonstração da sua diferença em relação a outras propostas éticas. Assim, precisamos listar modelos éticos que a filosofia de Aristóteles não pode acolher, como os modelos intelectualista, determinista e formalista.

Uma ética intelectualista é recusada intencionalmente por Aristóteles. É o caso da proposta socrático-platônica de que o conhecimento do bem é suficiente para a realização do bem. Por essa via, o homem só agiria mal por ignorância.

Como nos diz o historiador da filosofia antiga Giovanni Reale: “A ‘virtude’ do homem outra não pode ser senão aquilo que faz com que a alma seja tal como sua natureza determina que seja, isto é, boa e perfeita. E, segundo Sócrates, esse elemento é a ‘ciência’ ou o ‘conhecimento’, ao passo que o ‘vício’ seria a privação de ciência ou de conhecimento, ou seja, a ‘ignorância’”.

Para Aristóteles, é possível e comum que o homem tenha o bem como posse intelectual, mas não o tenha em sua ação. Que ele conheça o bem, mas não aja conforme o bem. Aristóteles também recusa um modelo ético baseado em princípios de conteúdo que antecedam a ação moral.

Desse modo, uma ética baseada nos mandamentos bíblicos cristãos, por exemplo, não faria sentido para Aristóteles, pois as ações não podem ser determinadas previamente como boas ou más, elas dependem das particularidades do contexto. A ética aristotélica recusa princípios de conteúdo a priori. Ela também não pode acolher um modelo ético baseado em princípios formais a priori, como o kantiano, baseado na ideia de dever.

Em Kant, para a realização da lei moral é preciso algo que ultrapasse o plano sensível e particular, se estendendo para o racional e universal, por meio da ideia de uma vontade pura, a vontade autônoma.

Através do dever, o sujeito racional prescreve a si mesmo sua própria lei. Ao sujeito moral basta seguir essa lei. Mas ela possui uma forma bem delimitada. A lei moral seria um conjunto de procedimentos formais. Essencialmente três: ela precisa ser categórica, incondicional e ser passível de universalização sem contradição. Esse modelo, a olhos aristotélicos, também não dá conta dos problemas éticos por conta da variação de contextos em que as ações estão situadas.

Embora a proposta cristã e a proposta kantiana sejam distintas, sobretudo porque uma diz respeito ao conteúdo e a outra à forma, elas não se aliam à proposta aristotélica na medida em que ambas pensam em termos de doutrinas morais regidas por leis universais que antecedem a ação e a abstraem de seu contexto.

Conforme a elucidação de Marco Zingano: A ética kantiana já foi caracterizada não sem razão como a ética que fornece uma expressão filosófica à aspiração, de origem religiosa, de um mundo regrado por mandamentos. Sobre seus pilares, o princípio da autonomia e o fato da razão, os deveres estabelecem-se sob forma de imperativos categóricos que regem o mundo moral como se ele seguisse leis da natureza.

A retomada da ética aristotélica proporcionou a certos autores uma lufada de ar fresco. Para Aristóteles, há uma única coisa a fazer em dada situação, e isto é o dever moral que o agente reconhece – o relativismo, por conseguinte, não tem lugar no sistema aristotélico –, mas não há regras previamente estabelecidas que possam fornecer a solução, bastando aplicá-las corretamente.

Ao contrário, o agente está imerso em um mundo prático tal que a avaliação da relevância moral das circunstâncias em que se desenrola a ação é decidida somente no momento em que passa a agir. Há, então, certa relatividade na ética aristotélica. Porém, Aristóteles não aceitaria um relativismo ético, em que o bem se resume à perspectiva de cada pessoa, de modo que a cada indivíduo, para agir moralmente, basta agir conforme sua vontade pessoal e aquilo que lhe convém.

Em Aristóteles, ainda que haja relatividade, existe também objetividade, há um norteamento que guia a ação moralmente válida. Até então, expomos modelos éticos que divergem da proposta aristotélica. Mas para que essas diferenças fiquem claras, precisamos expor o conteúdo da ética de Aristóteles. Isto é, não só mostrar a possível negação desses modelos éticos, mas a positividade da proposta aristotélica em si mesma. É o que começaremos a fazer a seguir, usando como guia o texto Ética a Nicômaco.

O bem supremo: a felicidade

A ideia de bem aparece nas primeiras linhas de Ética a Nicômaco, bem como nas primeiras linhas de Política, de Aristóteles: “Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem”.

É natural que as ações humanas tendam para algum fim. Existem bens que servem a outros bens. Mas deve haver um bem que determine todos os outros, que não seja meio para outros bens, mas um bem em si mesmo, tendo em vista o condicionamento teleológico das ações e da existência em geral. Sem um fim pelo qual os demais fins sejam meios, “o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria nosso desejar”.

Em uma sequência de bens, faz-se necessário um bem-limite, um bem autossuficiente, autárquico. A esse bem Aristóteles nomeia “felicidade”.

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